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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Houve tempo em que junto desse pátio tinha lugar o refeitório dos órfãos de S. Pedro, que depois se chamaram seminaristas de S. Joaquim e, portanto, aqui se sentia o rir dos meninos, a vivacidade dessas felizes criaturas que quase nunca se lembram do passado, que sonham com um futuro somente cheio de folguedos e festas, e que, a despeito de toda a disciplina, são sempre mais ou menos ruidosas e travessas, como é sempre ruidosa e travessa a vida naquela idade.

Depois o silêncio sucedeu ao ruído.

O refeitório transformou-se em jazigo. O pátio foi cercado de catacumbas, e onde soavam as risadas alegres dos meninos, correram lágrimas dos olhos daqueles que vinham chorar os seus finados.

Mas as catacumbas são também páginas importantes daquele grande livro da história que sempre se pode ler em um campo fúnebre.

É verdade que essas catacumbas desapareceram, como felizmente todas as outras que havia no centro da cidade. Ficou, porém, a lembrança delas, ficou o arquivo que nos recorda os mortos.

Lembremos, pois, um ou outro dos homens notáveis, cujos restos mortais foram enterrados nas catacumbas que em torno desse pátio existiam.

Aqui foi sepultado o monsenhor José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo. Era natural da cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu a 12 de outubro de 1753. Fez os seus primeiros estudos nesta mesma cidade e foi concluí-los em Portugal, onde se formou em cânones na universidade de Coimbra. De volta à sua pátria, mereceu logo depois a glória de ser contemplado na brutal perseguição que o enfezado opressor vice-rei Conde de Resende desencadeou contra os homens de letras. Para escapar à tempestade, aproveitou-se da autorização que obtivera do bispo para visitar o bispado do Rio de Janeiro e, então, em longas e demoradas viagens, foi recolhendo os difíceis e preciosos elementos que lhe serviram para escrever a obra que perpetua o seu nome, as Memórias históricas do Rio de Janeiro e das províncias anexas à jurisdição do vice-rei do Estado do Brasil, obra de um valor imenso, filha de investigações repetidas e perseverantes, e que, apesar de ressentir-se de falta de método, é uma fonte riquíssima de esclarecimentos e de informações, fonte onde eu, por exemplo, tenho bebido a fartar, e ainda não me sinto saciado.

Monsenhor Pizarro publicou esta obra de 1820 a 1822. Consta ela de nove volumes, sendo o oitavo dividido em duas partes, o que em realidade eleva a dez o número dos volumes.

Esse ilustre brasileiro foi eleito deputado à Assembléia Geral em 1825. Serviu, pois, na nossa primeira câmara temporária, que o honrou, elegendo-o seu presidente.

No dia 14 de maio de 1830, passeava Monsenhor Pizarro pelo Jardim Botânico da lagoa Rodrigo de Freitas, quando, de súbito, caiu morto fulminado por um ataque de apoplexia.

Também aqui foi sepultado o grande mestre e compositor de música brasileira, o ilustre padre José Maurício Nunes Garcia, natural da cidade do Rio de Janeiro, onde também fez todos os seus estudos de humanidades, de matérias eclesiásticas e da arte divina em que tão eminente se mostrou.

Tornou-se esse homem desde logo notável em todas as aulas que cursou, foi mesmo designado para substituto do seu mestre de filosofia racional, o Dr. Goulão, e lecionou durante algum tempo, contando entre os seus discípulos o depois célebre padre Luís Gonçalves dos Santos. Conquistou, porém, as mais belas palmas dos seus triunfos no cultivo e exercício da música.

Em um dos meus passeios já dei algumas informações a respeito desse ilustre fluminense, e não devo nem quero repetir o que já escrevi.

Acrescentarei apenas a relação de um fato que pouco terá de importante, mas que não deixará de servir a quem quiser escrever a biografia completa do padre José Maurício.

Em 1817, morava o padre José Maurício Nunes Garcia em uma pequena casa de sobrado e sótão, que ainda hoje existe na Rua da Lampadosa, quase ao canto da Rua de S. Jorge, -A e defronte do lugar que era ocupado pela pequena igreja de S. Jorge, e que hoje o é por algumas casas novas e assobradadas, recentemente construídas.

Tinha naquele ano chegado ao Rio de Janeiro a sempre lembrada Princesa D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, esposa do Príncipe Real o Sr. D. Pedro e depois primeira imperatriz do Brasil. Em um dos navios da esquadra que acompanhara S. A. Real viera uma banda de música que se fazia notar pela grande habilidade dos instrumentistas que a compunham.

Essa banda de músicos alemães tivera licença para ir estudar e ensaiar as suas peças de música em uma espécie de pátio que havia ao lado da igreja de S. Jorge, e portanto, defronte da casa do padre José Maurício.

Na primeira tarde, ao começarem os músicos o seu estudo, o padre José Maurício veio debruçar-se à sua janela, e aí ficou até que os músicos se retiraram. O mestre acabava de apreciar a perfeição com que eram executadas as obras de hábeis compositores.

(continua...)

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