Por José de Alencar (1875)
Mas que podia êle só com um velho inerme contra tantos inimigos que os cercavam naquele instante, para colhê-los como nas malhas de uma rede?
O Onofre não se abalou com as impaciências do Fragoso. Deixando-o andar às tontas, estendeu a sua gente em roda do caapoão e com os melhores vaqueanos começou a bater o mato em regra, como sabem fazer os sertanejos, a quem não escapa um quatí entre as fôlhas.
Nestas circunstâncias, se Arnaldo tentasse sair do mato, cairia nas mãos dos que faziam o cêrco, ou mostrar-se-ia no limpo aos inimigos, que imediatamente se lançariam sôbre êle.
Ficando dentro do mato, como livrar-se da batida do Onofre e seus companheiros, cuja marcha convergente sentia-se no atrito das fôlhas que rumorejavam em todas as direções?
Estas circunstâncias tinham ocorrido simultaneamente e com tamanha rapidez, que entre o primeiro grito da Justa e aquele instante não mediara mais de um quarto de hora.
D. Flor impaciente quisera correr ao encontro do pai, quando lhe ouviu a voz. Jó a reteve explicando-lhe a causa do tiro, bem como da partida precipitada do capitão-mór. A donzela teve então um momento de desânimo.
— Estou perdida! murmurou.
— Ainda não! respondeu Arnaldo de manso. Mas suas mãos não podem romper o mato; é preciso que eu a carregue, Flor.
— Não; prefiro ficar, disse a donzela secamente.
— Outros braços a levarão, mas para arracá-la à sua casa, e não para restituí-la a seu pai, que lá vai em sua procura. Que responderei ao sr. capitão-mór, quando êle pedir-me contas de sua filha?
Flor hesitou um momento: depois velou-se de uma fria impassibilidade, fez-se estátua, e caminhou para o sertanejo.
— Leve-me a meu pai.
Arnaldo suspendeu a donzela em seus braços robustos, recomendando-lhe que envolvesse a cabeça e o busto no gibão de couro para defender-se dos galhos e espinhos. Com êsse precioso fardo preparou-se para romper o meto.
Nesse transe não se lembrou o mancebo que estreitava o corpo gentil de uma donzela. O que êle carregava era uma relíquia ou a imagem de uma santa, e as formas encantadoras que êle palpava no seio eram de jaspe ou marfim.
Jó pedira a Flor que rompesse um fôlho de seu vestido. Enquanto Arnaldo desaparecia com a donzela na espessura, o velho esgueirou-se na direção oposta esgarçando a tira de pano pelos crauatás e unhas de gato.
O sertanejo chegou depois de algumas voltas a uma brenha atravessada por um trilho de veado. A meio dessa vereda caíra um grosso toro que a atravessava.
Arnaldo lembrou-se que nesse lugar havia um fojo. Como a caça já o conhecia, tinha-o êle condenado por algum tempo, cobrindo com o tronco a bôca a fim de mais tarde aproveitá-lo. Mal sabia então que serviço devia prestar-lhe.
Afastando o madeiro e retirando a terra, abriu o alçapão e entrou na cova para examinar, se tinha alguma cobra ou outro objeto capaz de assustar a donzela.
— É preciso esconder-se aquí, Flor.
— Só? perguntou a donzela.
— Tem mêdo?
— Não; seja meu coveiro, disse a moça com um sorriso. Enterre-me viva.
Arnaldo desceu Flor à cova, fechou o alçapão, cobriu-o novamente de terra, e colocou o toro sêco no lugar onde estava. Apagando todos os vestígios que podiam denunciá-lo, grimpou ao tope das árvores, onde zombava dos olhos mais perspicazes.
O Onofre e seus companheiros bateram o mato em todos os sentidos e não descobriram sinal de gente. O Fragoso, irritadíssimo com o novo revés, cobria o seu cabo de bandeira das mais pesadas injúrias, que êste sofria com uma calma inalterável, pois entendia que o patrão o pagava não só para serví-lo, como para aturá-lo.
Não achavam D. Flor e todavia tinham certeza que a donzela alí estivera. Rosinha o afirmara e as tiras do vestido rasgado pelos espinhos o provavam. Era impossível que saísse do caapoão sem a verem os do cêrco; e que ela não tinha conseguido escapar-se, bem indicava o engano do capitão-mór.
O Onofre, pois, insistia na esperança de afinal descobrir o esconderijo da moça e do sertanejo.
— No chão não está, disse o bandeirista; ainda que ela fosse uma cobrinha cipó, não me escapava. Só pode estar nos ares, aí trepada nalguma árvore.
Por ordem do bandeirista, subiram alguns à copa das árvores e começaram uma ronda pelos galhos. Diversas vezes passaram junto de Arnaldo, que os iludia imitando o canto da graúna. Onde pousava um passarinho, não podia estar oculto um homem. Também por diversas vezes passaram pelo fojo, e Flor ouviu o som dos passos por cima de sua cabeça.
Afinal já fatigados da porfia, escutaram tropel de animais que aproximavam-se rapidamente.
Eram sem dúvida o capitão-mór que voltava desenganado; e não tiveram outro remédio senão abandonar a partida e dá-la por perdida.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.