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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Nada de máscara!... não!... nada de máscara!... sinceridade ao menos. É preciso confessar que eu sou do vulgo, e cativa do meu século!... seria uma vergonha aceitar a defesa que me oferece aquele que eu me ufanava de amar, quando diz que a minha generosidade me sacrifica, quando pensa que eu sou uma mártir. Não!... nada de ilusões! o caso é simples: ponhamo-lo bem transparente. Eu disse a mim mesma que amava a um homem, e esse homem é pobre; meu pai sente estremecer sua casa, está a ponto de perder tudo, e meu primo, que é rico, se oferece para salvar-nos a preço de minha mão, isto é, temos de um lado um homem pobre, e do outro um rico; temos numa das conchas da balança — amor, e na outra — ouro!... temos ali um mancebo que me ama, e que me salvou a vida; acolá, um outro que não pode amar-me e que quer comprar a minha mão por alguns contos de réis; e aqui, enfim, temos uma mulher que diz que ama, e hesita na escolha; que diz que despreza o ouro e tem pensado em se deixar vender por ele!... Não!... ainda uma vez nada de máscara!... nada de falsas interpretações!... o que quer dizer aquele que escreve a um pai estas palavras — toma esse dinheiro; mas dá-me tua filha — o que quer dizer?... falemos claro: é exatamente o seguinte — queres vender-me tua filha?... eu dou-te tanto.

Copioso suor banhou a fronte de Honorina, que prosseguiu com dobrado fogo.

— Isso quer dizer que se negoceia com o coração de uma mulher!... que a alma, que ama, a alma, que é dom do céu, a alma que é espírito, a alma, que é de Deus, pode comprar-se com o ouro dos homens!... oh!... e quando se tem um pai, como eu tenho, que não é tirano, que é amigo extremoso, que é, enfim, digno do sagrado nome de pai; quando ele me está dizendo — filha!... respeita a flor de teu coração! filha, não te sacrifiques!... filha, não cases com quem não amas!... filha, decide-te com toda a liberdade! — pensar eu, um instante só, em sacrificar-me!... o que é a desgraça, que para não ser pobre se liga para sempre ao homem que mal conhece, traindo um outro, que tem domínio sobre seus pensamentos, que é o objeto do mais puro amor?... o que é?... é uma mulher que se vende! não é uma mulher, não: é uma escrava, ou, ainda melhor, a alfaia delicada que um homem regateia e compra!...

Honorina estava realmente bela nesse monólogo febril, em que ela deixava fugir-lhe dentre os lábios as proposições atrevidas de seu exagerado raciocinar, como centelhas brilhantes de um vivo fogo, em que internamente estivesse ardendo. Mas arrastada por sua imaginação, continuou ainda:

— E como me desculpo eu!... digo que hesito, porque me lembro do quanto sofrerão meu pai e minha avó nas garras da pobreza que os ameaça!... sinto isto no coração; porém, meu Deus, a pobreza e a miséria poderão causar maior dor a meus pais do que o aspecto da minha desgraça?!... não será enormíssima crueldade, que uma moça se faça infeliz por suas mãos, casando-se com um homem a quem não ama, quando sabe que sua desdita, sua vida de martírio, vai ser um tormento incessante, eterno, despedaçador do coração de seu pai?... E, demais, o que faz a mulher que abafa suas ternas afeições para sacrificar-se a um noivo que não poderá amar nunca?... de duas uma: ou é má, e suspira por um véu de viúva, ou é vítima, e com o rosto em lágrimas com o padecimento na face faz o tormento do marido, que a infelicita, e, finalmente, o atraiçoa na alma; porque, mesmo contra a vontade, pensa no seu primeiro amor.

Depois de um instante de silêncio, a filha de Hugo de Mendonça prosseguiu:

— E eu então que outrora bradava: é um horrível sacrilégio ir um homem ajoelhar-se aos pés do altar, receber a bênção do sacerdote, estender a mão para uma triste mulher, com os olhos em seu rosto e o pensamento no seu dinheiro!... Eu, então, como devo bradar agora?... oh!... pela última vez, nada de máscara!... não!... sinceridade ao menos!... esse ente, que tenho ouvido dizer que é muito belo, e que começo a experimentar que é muito desgraçado; a mulher, que esquece o amor pelo ouro, que entrega sua mão a um homem com as vistas em suas riquezas, procede dobradamente pior! sim, porque a mulher vale muito, vale tudo pelo amor; e sem ele perde seu brilho, todo o seu merecimento; sim, porque o amor é o perfume, o encanto da mulher; sim, finalmente, porque a mulher, que vai junto aos altares jurar amor eterno a um homem que não ama, jurar por Deus, o que não pode cumprir, é mil vezes sacrílega!... fecha com suas próprias mãos as portas da salvação!... pois bem, não serei sacrílega!... não serei sacrílega!... e, quando meu pai me perguntar — o que decides?... — eu lhe direi bem alto — não!...

Mas, no meio do ardor e da veemência de seus pensamentos, mesmo quando acabava de pronunciar a palavra — não! —, parece que uma idéia sinistra surgiu na alma da virgem; pois que ela, soltando um gemido, exclamou com a expressão da mais dolorosa angústia:

— E meu pai!... e meu desgraçado pai!...

E deixou-se cair no leito, como quem tivesse esgotado todas as suas forças.

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Pelo correr das dez horas do dia o curso de sua reflexões foi interrompido por Lúcia, que entrou no quarto.

Honorina, ao senti-la chegar, ergueu-se para atirar-se nos seus braços, mas recuou espantada, vendo alegre sorrir derramado nos lábios de Lúcia.

Oh!... é mais que impiedade; é talvez um insulto, que aquele a quem estimamos venha rirse no rosto de nossa dor!...

— Estás bem alegre, mãe Lúcia! disse a moça em tom de amarga queixa.

— Eu pensava que a senhora também o estaria!

— É por que eu sou bem venturosa, não é assim, mãe Lúcia?!

(continua...)

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