Por Aluísio Azevedo (1895)
Por conseguinte, o dinheiro arriscado nessa especulação de cambiais não foi recuperado; as libras, que aliás haviam chegado excepcionalmente ao valor de 15$ cada uma, desceram de repente e foram vendidas por muito menos do custo.
Teobaldo viu-se perdido. Além de ficar completamente despido de dinheiro, ainda tinha de apresentar seis contos de réis ao seu fornecedor de café em certo dia convencionado, sob pena de perder também o crédito, que era a coisa única com que podia ainda contar para a sua reabilitação.
No entanto só o Coruja, o Aguiar e Branca sabiam da verdade inteira a respeito disso; de todos os mais Teobaldo escondeu a sua crítica situação, convencido de que tudo perdoam aos homens, menos a infelicidade.
Este fato de ter de esconder o seu desespero ainda mais o fazia sofrer, enchendo-lhe as horas de amargura e sobressalto.
Foi então que o Aguiar se chegou para ele e disse, batendo-lhe no ombro:
- Ora, se a questão é de seis contos de réis, não tens que te afligir, eu tos empresto; teu crédito não ficará abalado!
Teobaldo abraçou-o, declarando que o Aguiar acabava de lhe salvar a honra.
- És um verdadeiro amigo! disse-lhe. Se não foras tu, era natural que eu metesse uma bala nos miolos!
Quando Branca se achou a sós com o primo, apertou-lhe a mão muito comovida e repetiu pouco mais ou menos as palavras do esposo.
- Engana-se, respondeu o Aguiar, não foi por ele aquilo, foi simplesmente em honra da senhora.
- Não é então amigo de Teobaldo?
- Eu o detesto.
- Foi nesse caso só por mim que o socorreu?
- Bem sabe que sim.
E chegando-se para ela, acrescentou em voz baixa:
- E que não faria eu por sua causa? Terei porventura alguma outra preocupação que nãoseja tornar--me aos seus olhos cada vez mais digno? Terei maior ambição do que vê-la satisfeita comigo e perdoando-me o estimá-la mais do que me é permitido... E tanto assim que nada mais lhe peço além de declarar com franqueza o que quer que eu faça; ordene e ver-me-á submisso e escravo a seus pés cumprindo as suas leis.
- Não tenho ordens para lhe dar, nem direito para isso, apenas desejo que meu primo continue a ser meu amigo, e, visto que não está nas mesmas circunstâncias em que eu estou para com Teobaldo, perdoe-lhe as franquezas e as maldades.
- Não! Eu só perdoaria àquele vaidoso se ele a deixasse em paz!
- Não o compreendo e peço licença para retirar-me, sinto-me indisposta; meu marido não tarda aí e far-lhe-á companhia.
Branca afastou-se tranqüilamente, sem se mostrar nem de leve receosa das seduções do primo; ao passo que este, sufocando a sua impaciência, deixou-se ficar imóvel no lugar em que estava, a fitá-la pelas costas com o seu comprido olhar de homem teimoso e vingativo.
Que pensará de mim esta mulher? interrogou ele intimamente, cruzando os braços no meio da sala. - Que idéia fará da minha vontade e do meu querer? Pois não perceberá ela que eu, odiando o marido, não faria por este o menor sacrifício, se não fora a esperança de saciar o amor que me põe louco? É impossível que Branca, tão inteligente e tão lúcida, não me compreenda e não perceba as minhas intenções! É impossível que ela me suponha tão fácil de contentar que eu só exija de sua pessoa um casto e fraternal reconhecimento! Ah! mas agora, agora que os tenho seguros por uma dívida de meia dúzia de contos de réis, hei de chegar aos fins a que desejo ou muito terão eles de amargar!
Fazia tais reflexões, quando Teobaldo entrou da rua.
Vinha extremamente pálido e, pelos modos, bastante contrariado.
- Oh! que tens tu? perguntou-lhe o outro, indo ao encontro dele. Estás com uma cara! Alguma coisa te contraria ainda?
- Nada!
- Desconheço-te, homem!
- Nada! não tenho nada! necessidade de repouso.
- Nesse caso, retiro-me...
- Não. Fica à vontade.
- Julgas que é muito agradável suportar-te neste estado?...
- É exato. Confesso que estou preocupado. Mais tarde saberás por que.
- Bem; não falemos mais nisso e conversemos sobre outra coisa.
Mas, daí a meia hora, dizia o Aguiar:
- Não! Tem paciência! Hoje não posso contigo. Adeus. Voltarei quando estiveres mais admissível.
Teobaldo, mal viu sair o amigo, meteu-se no seu gabinete de trabalho, acendeu o gás, fechou-se por dentro e pôs-se a reler uma carta, que tirara da algibeira.
Era uma carta anônima e dizia o seguinte:
Meu adorável Teobaldo.
O feitiço vira-se às vezes contra o feiticeiro: tu, que tens destelhado a valer a honra de vários maridos, estás agora com a tua exposta à chuva e aos ventos... Olha que lhe fazem cada rombo, que até da rua a gente os vê!...
E a graça, adorável Teobaldo, é que deves esse obséquio ao teu melhor amigo, ao teu intimo, ao teu unha com carne! Coitado do meu Teobaldo!
Se exiges provas do que dizemos, estamos dispostos a dar-tas quando quiseres." Assinava - Uma das vítimas dos teus encantos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.