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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Não disponho de alguém que me estima nesta vida!... todos os que se chegam para mim, trazem já a intenção artificiosa de iludir­me ou de desprezar­me! É por isso que eu disputava Gabriel com tamanho empenho, é porque, desse ao menos, tinha a certeza de que tudo aquilo que viesse seria sincero e generoso... Pobre rapaz! Talvez hoje no mundo seja o único que me vote algum amor... os mais odeiam­me!... Se é um homem me odeia porque não lhe posso pertencer exclusivamente, como um cavalo de raça; se é uma mulher, porque não pode admitir que eu seja mais formosa do que ela. Entretanto, preferia ser feia, e atravessar a existência, obscura e feliz, ao lado de um marido... Mas não sei que maldição terrível me acompanha, que veneno insanável me poreja da pele, para destruir e matar tudo em que toca meu desejo! Cada vez que firmo o pé, é uma chaga que abro no caminho! Quem me dera ser boa para todos... mas meus carinhos embriagam, como a pérfida manenilha, e meus lábios queimam, como um réptil venenoso! Desde a loucura de meu marido até à morte de Laura, é minha vida uma triste cadeia de decepções; tudo que aspirei, tudo que amei, tudo que constituiu para mim sonho, esperança, ilusão querida, foi pouco a pouco enregelando e fenecendo, como uma aldeia varrida pela peste. Já não me animo a ter uma vontade! Agora mesmo, de volta ao Rio, vinha pensando em minha mãe, ardia por abraçá­la, queria refugiar­me, de todas as misérias de minha vida, naquele coração singelo e bom; mal chego, porém, descubro que ela morava em um cortiço, escrevo­lhe várias vezes, pedindo, rogando, que me aparecesse; e ela nem sequer me respondeu! Diga, não será isto a última das desgraças? não será isto a última expressão do infortúnio?... E vem o senhor pedir­me ainda que lhe ceda o Gabriel! Peça­me tudo que quiser; leveme os diamantes, os cavalos, os móveis, mas deixe­me esse coração que me resta; deixe­me, por piedade, esse derradeiro amor!

— Não! isso, não! respondeu Gaspar, sacudindo a cabeça.

— Então, dê­me outro que o substitua; como já disse, não é que eu ame Gabriel, mas preciso ser amada por alguém... o senhor quer arrebatar­me a última afeição que me resta; pois bem! pode levá­la, mas há de deixar­me outra no lugar dela!...

Houve uma grande pausa. Gaspar permanecia, imóvel e mudo, ao fundo do sofá. Um ligeiro sorriso de ceticismo encrespava­lhe os lábios frios. Ambrosina, afinal, tomou­lhe de novo as mãos:

— Então, meu amigo, balbuciou ela; diga­me alguma cousa! Pois eu serei tão ruim, que lhe não mereça um bocadinho de afeio?!...

— Se se trata de uma simples afeição, uma afeição apenas, como ainda há pouco disse, de bons amigos de outro tempo, não porei dúvida alguma nisso...

— Obrigada! obrigada! interrompeu Ambrosina com uma alegria de criança.

— Ouve, minha filha! E o velho tomou paternalmente a linda moça pela cintura e fê­la assentar­se sobre seus joelhos. — Eu amo tanto aquele pobre Gabriel, que, se tu fosses capaz de ajudar­me a regenerá­lo, eu, por gratidão, por admiração da tua generosidade, nem só seria teu amigo, como teu pai agradecido, teu protetor e teu amparo moral.

— Como és bom! disse ela, conchegando­se carinhosamente ao corpo de Gaspar. Como eu gosto de estar assim encostadinha a ti... Consola tanto ter a gente um peito como este para descansar a cabeça!...

A E, toda arrepios de rola acariciada, acrescentou com voz úmida, suplicante, infantil, a bater de leve no peito de Gaspar:

— Aqui não há vaidades, não há caprichos! tudo isto é verdadeiro e puro! Não é certo que tu me amas, como se eu fosse tua filhinha?... Dize, meu papá! Dize meu amor!

Gaspar, a despeito de tudo, sentiu­se comovido.

— Mas hás de esquecer­te por uma vez do Gabriel não é assim?...

— Bem me importa agora o Gabriel! Tu é que serás o meu amigo; e eu a tua nenê, meiga e submissa, como uma gatinha! Hein? que bom! que bom! exclamava ela, a encolher­se nos braços de Gaspar; amar um homem, sem outra intenção além do próprio sentimento; desejar tê­lo, sem outro fim mais que uma afeição tranqüila e casta. Oh! isto sim, isto deve ser consolador!

— Bem! disse Gaspar, procurando delicadamente desviar­se dos braços de Ambrosina. Ficamos então entendidos, não é assim?... Eu serei o teu bom amigo, e tu nunca mais darás um passo para perseguires Gabriel!

E ergueu­se.

— Sim, respondeu a formosa rapariga, que também se havia levantado. E, novamente abraçada a

Gaspar, fazia­lhe agora festinhas na barba com o seu dedo de unha cor­de­rosa. — Sim, sim! mas quero que me dês uma prova do teu afeto, antes de partires amanhã...

— Uma prova?... Como? de que forma?...

— Vindo hoje mesmo, à meia­noite, cear em despedida aqui comigo. Pois eu consentiria lá que te fosses sem me dizer adeus?...

— Mas, à meia­noite?!... Pareceria isso mais uma entrevista de amantes do que...

— Não sei porquê?... interrompeu ela. Não são as horas, nem é o lugar, que fazem as situações. Não tens confiança em ti?... tenho eu em mim! Convém­me estar ainda, antes de partires, uma vez a sós contigo, e só a meia­noite é que me pertenço... Daqui a nada está aí gente para jantar em minha companhia!

— Mas...

— Se não quiseres vir, desisto já de tudo que combinamos, e eu procederei como entender!

— Bom! Bom! Virei à meia­noite; mas tu estarás só!...

— Juro­te! Nem mesmo pelos criados serás visto...

— Pois até logo.

— Vens, então?...

— Acabo de dizer que sim.

— E se não vieres?...

— Farás o que entenderes...

— Olha lá!...

— Estamos combinados, filha!

Pois conto contigo... Se encontrares a porta fechada toca o tímpano três vezes seguidas.

— Sim, adeus.

— Adeus, meu bom amigo.

E Gaspar, impaciente, alterado, ganhou o largo do Rocio, e tomou a direção do Mangini.

Pelo caminho reparou que todo ele ia penetrado do sutil e capitoso perfume, que Ambrosina exalava das carnes e dos cabelos.

XXXIX

A VEZ DA CIGARRA

No terraço do Alcazar corria a pândega desenfreada. Representava­se La folie parfumeuse, e as notas candenciosas da alegre partitura misturavam­se no pesado ambiente do teatro com frêmito das gargalhadas, o fumo dos charutos e o vapor inebriante dos vinhos.

(continua...)

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