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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

É na sala do consistório, isto é, no mesmo consistório que se reúne a irmandade de S. Pedro, para celebrar as suas sessões e, portanto, não poucas interessantes histórias poderíamos aqui encontrar, se tão facilmente não as esquecesse a memória dos homens.

Uma, no entanto, ainda até hoje se conservou na lembrança de alguns irmãos de S. Pedro, e que se não é igual àquela travessura eleitoral do velho padre provincial de S. Antônio que vos referi no compe tente passeio, é pelo menos digna de um bom cabalista.

Vou contar a história.

Um padre, ainda em anos deste século, pretendia ser admitido no coro de S. Pedro. Deu-se o caso de uma vaga, apresentou-se candidato e foi reprovado pela mesa da irmandade.

Um cabalista não desanima com as derrotas. Ao contrário, sente-se excitado por elas, e nutre desejos ardentes de novos combates em que, além de colher a palma da vitória, tire desforra das zombarias dos adversários.

O padre calou-se e esperou; e logo que outra vaga apareceu no coro de S. Pedro, apresentou-se candidato e começou a trabalhar. Com a experiência que colhera na primeira campanha em que fora vencido, tomou todas as precauções, e estudando o campo inimigo, pois que outro candidato também pretendia o lugar suspirado, reconheceu que ainda essa vez teria de ser vencido por dois votos!

Pois bem, o homem não desanimou. Reforçando os seus pedidos e empenhos, tranqüilizou-se a respeito da segurança dos votos que lhe tinham sido prometidos e ficou sem mais se esforçar por conquistar outros, à espera do dia da mesa da irmandade.

Enfim, o dia estava a chegar, e o padre moveu-se na véspera de tarde.

Que faz ele? Marca para o ataque que já havia planejado três padres de sua escolha, três padres membros da mesa e que deviam votar no seu adversário. Vai à casa de um amigo, porque não quer despertar desconfianças, executando ele próprio o seu movimento estratégico; procura, pois, um amigo, entrega-lhe três bilhetes de l0$000 e recomenda-lhe que, sem falar no seu nome, vá à casa dos três padres e a cada um deles encomende uma missa para o dia seguinte, às dez horas da manhã, devendo elas serem celebradas uma na ermida de Nossa Senhora da Glória, outra na matriz de Nossa Senhora da Glória e a terceira, enfim, na igreja da Lapa.

O amigo saiu. As missas foram encomendadas, e a esmola de l0$000 a cada um dos padres fê-los sorrir com razão, porque, principalmente naquele tempo, l0$000 eram uma espórtula avultada e um pouco rara.

No dia seguinte, reuniram-se os irmãos de S. Pedro às 10 ho ras do dia, esperaram até às 10 e meia pelos três padres que faltavam, cansaram de esperar, instalou-se a mesa e às 11 horas da manhã, o padre cabalista ganhou por um voto o lugar vago do coro de S. Pedro.

De volta para casa, o padre encontrou o amigo que o esperava.

– Então? – perguntou este.

– Ganhei por um voto – respondeu o padre.

– Ah! É porque soube empregar os meios.

– Sim. Mas está vendo que empreguei somente meios justos esantos... Mandei dizer três missas por minha intenção.

Nada mais temos que ver no consistório da igreja de S. Pedro.

Desçamos. É mais fácil descer do que subir. Perguntem aos ministros de Estado.

Temos agora, do lado do Evangelho da igreja e contíguo ao corpo desta, um longo corredor destinado, creio eu, a guardar objetos que servem nas cerimônias do culto. Nada teríamos que apreciar aqui a não serem os dois retratos que ornam uma das paredes do corredor.

São os retratos do cônego Manuel Freire, um dos benfeitores da instituição do coro, e do cônego Alberto da Cunha Barbosa, um dos benfeitores da instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da irmandade de S. Pedro. Ignoro qual o artista que tirou estes retratos.

Um pequeno corredor comunica a sacristia da igreja de S. Pedro com um limitado pátio, em torno do qual existem, convenientemente abrigados, diversos armários, contendo alfaias e ornamentos da igreja. Em um desses armários conservam-se com zeloso cuidado seis grandes ramos de flores artificiais. trabalho delicado e digno de atenção e de elogios, feito pelas freiras de Santa Teresa. Nessas flores a natureza foi perfeitamente imitada, e devem-se apreciar ainda mais as finas tintas empregadas, tintas que resistem à ação do tempo, conservando as flores o seu viço primitivo.

No fundo do pátio há uma saleta onde se acham também armários. Estes, porém, destinados aos capelães que neles guardam as suas vestes próprias do culto e os seus livros.

Esse pátio é histórico. Recorda-nos o ruído alegre da vida e o triste silêncio da morte.

Ides ver que não estou fazendo poesia.

(continua...)

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