Por José de Alencar (1875)
Rosinha alerta e escutando ansiosa o tropel dos cavaleiros, como se os apressasse com seu anelo, voltou-se inquieta para o lado da casa, onde troou nesse momento a voz possante do capitãomór Campelo, bradando:
— Meu bacamarte, D. Genoveva! O Jacaré!…
Então a cigana temendo que o fazendeiro acudisse a tempo de livrar a filha das garras do Fragoso, correu sôbre a donzela, travou-lhe do pulso, e quis arrastá-la ao encontro do trôço de cavaleiros.
A donzela recalcou a indignação que sublevava-lhe a alma nobre, e opôs à fôrça uma resistência passiva. Rosinha era mais robusta do que ela, mas nesse dia, prostrada como estava, não podia levá-la por violência.
Metendo a mão no corpete, sacou a cigana um punhalzinho da lâmina fina, como a aspa de um espartilho, e o brandiu sôbre a cabeça da donzela:
— Se não me acompanha, mato-a!
D. Flor respondeu-lhe com um soberbo gesto de desprêzo, e ficou a olhar desdenhosamente para a arma que a ameaçava. A cigana hesitou um instante; depois lembrou-se que ferindo a donzela, mais facilmente a arrastaria para o mato.
Quando o punhal descia sôbre a espádua de Flor, abriu-se a folhagem e surgiu Arnaldo. Tão medonho era seu aspecto que a cigana ao vê-lo crescer para ela, fugiu espavorida, levando enleada no braço a capa da donzela.
O sertanejo com a faca desembainhada arrojou-se a ela, mas a voz de D. Flor o deteve:
— Não a mate, Arnaldo! Agarre-a para que meu pai a castigue.
A cigana, porém, tinha desaparecido; e as falas que já se ouviam dos cavaleiros advertiram a Arnaldo que para salvar D. Flor não havia um instante a perder.
— Venha! disse êle para a donzela.
— Para onde?
— Para a casa.
— Quem é esta mulher? Que me queria ela?
— Entregá-la ao Marcos Fragoso.
O sertanejo abria a folhagem para que a donzela passasse mais facilmente; porém ainda assim era demorada a sua marcha. As vozes dos cavaleiros aproximavam-se e já entre elas distinguira o mancebo a de Fragoso. Entretanto ainda soavam longe os brados do capitão-mór e o tropel da gente da fazenda.
A poucos passos encontraram Jó, que os buscava:
— Estamos cercados, disse o velho.
Nova dificuldade surgia, e talvez que insuperável. O sítio onde crescia a gameleira fôra bem escolhido pela astuta cigana para a cilada que armara. Era uma coroa de mato, que ligava-se à floresta por estreito cordão, como istmo de ilha.
Distante da casa um quarto de légua, e encoberto por um largo bojo da mata, era fácil à escolta do Onofre cercar o caapoão, apoderar-se da donzela ainda quando a acompanhassem outras pessoas e executar a emprêsa, sem darem rebate à fazenda.
Arnaldo, conhecia melhor que ninguém o sítio, e julgou da posição de D. Flor. Não desesperou contudo. Êle e Jó levantariam com seu corpo uma muralha diante de D. Flor e a defenderiam até a chegada do capitão-mór.
Quando já indicava o grosso tronco de um jacarandá para que Flor nele se abrigasse, ressoaram perto daí os gritos abafados que soltava uma voz de mulher, simulando-se de D. Flor, e que iludiram o capitão-mór.
Sucederam-se por momentos êstes clamores, fugindo rapidamente para o lado da várzea, e acompanhados do tropel dos cavalos a galope. Foram, porém, abafados pelo grito do Campelo, ao que se seguiu um tiro.
Ao estrondo que estremecera a terra, o sertanejo reconheceu o bacamarte do capitão-mór, como lhe tinha reconhecido a voz, e adivinhou o que se passara.
Águeda escapando a Arnaldo correu direito ao encontro da escolta, guiada pelo tropel. Avistando Fragoso que vinha na frente com o Onofre, atirou-se a êles:
— O maldito vaqueiro chegou quandoeu ia arrastá-la, e o capitão-mór aí vem! disse precipitadamente, apontando para a fazenda.
Onofre calculou o lance; era nos transes apertados que mostrava o coriboca seus recursos. Já êle tinha chamado o Corrimboque e dava-lhe suas ordens; depois voltou-se para a rapariga e em poucas palavras a pôs ao corrente do novo trama.
Águeda despiu a saia preta, envolvendo o corpo na capade D. Flor, e saltou no arção da sela do Corrimboque. Êste a tomou nos braços e partiu a galope, seguido de três bandeiristas que lhe serviam de escolta.
Foi então que a astuta cigana, debatendo-se nos braços do cabra, conseguiu iludir com seus gritos ao capitão-mór levando-o após si, e deixando assim o Fragoso livre de estorvos.
Ouvindo esvaecer com a distância o estrépito das patas dos animais, Arnaldo que tinha adivinhado o ardil, convencera-se de que já não podia esperar o socorro do fazendeiro e só devia contar consigo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.