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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Peri se divertia em ver esse inocente idílio, quando a índia levantando-se de repente soltou um pequeno grito de alegria e de prazer, e sorrindo mostrou ao prisioneiro os dois passarinhos que voavam um a par do outro sobre a cúpula da floresta. 

Enquanto ele procurava compreender o que queria dizer este aceno, a virgem desapareceu, e voltou quase imediatamente trazendo um instrumento de pedra que cortava como faca e um arco de guerra. 

Aproximou-se do índio, soltou-lhe os laços que lhe ligavam os punhos, e partiu a muçurana que o prendia à árvore. Executou isto com uma extrema rapidez; e entregando a Peri o arco e as flechas, estendeu a mão na direção da floresta, mostrando-lhe o espaço que se abria diante deles. 

Seus olhos e seu gesto falavam melhor do que a sua linguagem inculta, e exprimiam claramente o seu pensamento: 

— Tu és livre. Partamos! 


QUARTA PARTE

A  CATÁSTROFE 

 

ARREPENDIMENTO 

 

Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar, chamou quatro companheiros em que mais confiava, e retirou-se com eles para a despensa. 

Fechou a porta a fim de interceptar a comunicação com os aventureiros e poder tranqüilamente tratar o negocio que tinha em mente. 

Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da véspera: as palavras de ameaça há pouco proferidas lhe revelaram que o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem que recuasse diante de um obstáculo e deixasse roubarem-lhe a esperança, que nutria desde tanto tempo. 

Resolveu fazer as coisas rapidamente e executar naquele mesmo dia o seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavam para levar ao cabo a empresa que projetara. 

Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros à sala que tocava com o oratório e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição, minando a parede que os separava da família. 

— Amigos, disse o italiano, estamos numa posição desesperada; não temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos de sucumbir. 

Os aventureiros abaixaram a cabeça e não responderam; sabiam que aquela era a triste verdade. 

— A morte que nos espera é horrível; serviremos de pasto a esses bárbaros que se alimentam de carne humana; nossos corpos sem sepultura cevarão os instintos ferozes dessa horda de canibais!... 

A expressão do horror se pintou na fisionomia daqueles homens, que sentiram um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até à medula dos ossos. 

Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos decompostos: 

— Tenho porém um meio de salvar-vos. 

— Qual? perguntaram todos a uma voz. 

— Esperai. Posso salvar-vos; mas isto não quer dizer que esteja disposto a fazê-lo.

— Por que razão? 

— Por quê?... Porque todo o serviço tem o seu preço. 

— Que exigis então? disse Martim Vaz. 

— Exijo que me acompanheis, que me obedeçais cegamente, suceda o que suceder. 

— Podeis ficar descansado, disse um dos aventureiros; eu respondo pelos meus companheiros. 

— Sim! exclamaram os outros. 

— Bem! Sabeis o que vamos fazer, já, neste momento? 

— Não; mas vós nos direis. 

— Escutai! Vamos acabar de demolir esta parede e atirá-la dentro; entrar nesta sala, e matar tudo quanto encontrarmos, menos uma pessoa. 

— E essa pessoa... 

— É a filha de D. Antônio de Mariz, Cecília. Se algum de vós deseja a outra, pode tomá-la; eu vo-la dou. 

— E depois disso feito? 

— Tomamos conta da casa; reunimos os nossos companheiros e atacamos os Aimorés.

— Mas isto não nos salvará, retrucou um dos aventureiros; há pouco dissestes que não temos força para resistir-lhes. 

— Decerto! acudiu Loredano; não lhes resistiremos, mas nos salvaremos.

— Como? disseram os aventureiros desconfiados. 

O italiano sorriu. 

— Quando disse que atacaremos o inimigo, não falei claro; queria dizer que os outros o atacarão. 

— Não vos entendo ainda; falai mais claro. 

— Ai vai pois. Dividiremos os nossos homens em duas bandas; nós e mais alguns pertenceremos a uma que ficará sob a minha obediência. 

— Até aqui vamos bem. 

— Isto feito uma das bandas sairá da casa para fazer uma sortida enquanto os outros atacarão os selvagens do alto do rochedo, é um estratagema já velho e que deveis conhecer: meter o inimigo entre dois fogos. 

— Adiante; continuai. 

(continua...)

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