Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
O moço, apesar de todos os esforços de João, lançou a mão no bolso deste, e apoderou-se da carta.
Deixou então livre o seu adversário, e erguendo-se estendeu o braço, e mostrou-lhe com o dedo trêmulo a porta:
– Para sempre fora de minha casa! disse em desordem, e a raiva no coração. O velho respondeu:
– Sim; mas não para sempre; porque hei de voltar para vingar-me. E saiu.
CAPÍTULO XXXVI
OS DOIS IRMÃOS
RODRIGUES estava no seu posto, no alpendre.
Achava-se sentado e meditando em um canto dele.
A sua mão esquerda via-se meio cerrada a porta de seu quarto.
De repente entrou no alpendre, apressado e arquejando de fadiga, um homem que trazia as vestes em desordem, e pintada no semblante a mais viva agitação.
O velho Rodrigues ergueu-se surpreendido, e dando dois passos para o recémchegado, exclamou:
– João!
A personagem que acabava de entrar atirou o chapéu a um canto, e sentou-se na cadeira, da qual se tinha levantado Rodrigues.
Esses dois homens eram os mesmos que em certa noite Jacó vira sentados e conversando à portaria do convento da Ajuda.
Vistos agora à luz do dia e ao pé um do outro, admiraria a semelhança de seus semblantes. A única diferença que se podia notar, era ser João muito mais sangüíneo.
João e Rodrigues eram irmãos gêmeos.
– João! exclamou de novo o velho guarda-portão; que é isso?... o que tens?...
– O que tenho?... respondeu o antigo agente da casa de Salustiano; tu me perguntas o que tenho? é a raiva dentro do coração; é a vingança inspirando projetos infernais.
– Mas como?... fala!...
– Disse tudo.
– Porém vingança contra quem?
– Contra o falsário... o ladrão! murmurou surdamente João.
– Oh!...
– Sim... contra ele.
– É filho dele! disse com voz repreendedora Rodrigues.
– E também filho dela!... acrescentou lugubremente João.
– Embora! tornou o primeiro: juramos protegê-lo, lembra-te.
– Sim... sim... disse o outro com terrível acento: protegê-lo... amá-lo... ainda que ele te pise com suas botas, e te cuspa no rosto! não?!
– Como é isso?
– É assim mesmo.
– Pois ele ousou...
– Tudo, respondeu João com voz surda.
– E tu?
– Tenho sessenta anos... já não sou o mesmo; antigamente atacava cara a cara, e vencedor ou vencido, tudo estava acabado, acabada a luta. Hoje não: estou velho... minhas juntas se acham enferrujadas... lutei com um mancebo, e ele ganhou a partida; mas agora também o caso é outro... não esqueço como dantes. O forte pode bater-se braço a braço; o fraco espera atrás de uma esquina!
– João!
O irmão de Rodrigues soltou uma gargalhada nervosa e horrível; uma dessas gargalhadas filhas do furor e do desespero.
– João! queres ser um vil assassino no fim de teus dias?
– Não! bradou o outro, não!... pois é só atrás das esquinas e com a faca, com a arma da traição que se vingam os fracos?... outra vez não! eu quero estar livre... quero passear à minha vontade pelas ruas!... oh! quem sabe se eu não terei de cumprimentar um galé? ...
– João!...
– Sim; já o disse: vê-lo-ei com prazer arrastando as cadeias dos criminosos públicos!... não pertence ele de direito ao seu número?... sim; pertence... cometeu um crime vergonhoso.
– Graças a Deus, João, o fogo consumiu as provas dessa loucura.
– Graças a Deus, Rodrigues, as provas existem ainda, e eu hei de apoderar-me delas.
– Que estás dizendo?... é verdade o que acabas de dizer?.
– Sem dúvida.
– Como chegaste a saber disso?... como hás de conseguir.
– É o segredo da minha vingança.
– Nada de vingança, irmão.
– Fui ofendido demais.
– Conta-me o que houve, eu te escuto.
– Para quê?...
– Quero aconselhar-te, João.
– Eu não vim pedir-te conselhos.
O velho Rodrigues deixou cair a cabeça tristemente, refletiu alguns instantes,
e depois perguntou:
– Com que fim pois vieste ver-me?
– Tenho que dizer-te.
– Fala.
– Meu irmão, até hoje de manhã um só pensamento nos ocupava. Doravante nossos desígnios são distintos. Até hoje pensávamos somente em fazer bem. Tu continuas sempre com a mesma idéia, eu porém estou determinado agora a fazer mal.
– Adiante, disse Rodrigues.
– Vim pois dizer-te o que descobri, o que sei, o que pretendi, e não pude fazer, para que tu fiques trabalhando para completar a obra que começamos juntos, e que pela minha parte não posso levar ao cabo.
– Então o que há?
– Salustiano está com efeito de posse da décima segunda carta.
– Decerto?
– Eu a vi.
– Tu?...
– Eu a li... tive-a em minhas mãos!
– Oh!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.