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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Mas se ainda a derradeira esperança tem de ser também a minha última ilusão; se a vida deve, finalmente, deixar-me, evaporando-se pouco a pouco no esquecimento de alguma cabana solitária; então, na hora da extrema agonia, farei com que o arranco doloroso do pensamento se transforme em um hino de saudade votado à mulher que adorei com tanta paixão.

E, como o cisne que canta assentado na beira do sepulcro em que vai cair, eu pisarei no umbral da eternidade, e saudarei o espectro da morte, entoando um canto de amor!...

FIM

Quando Honorina terminou a leitura das páginas de amor, apertou-as fortemente contra o coração; e depois, reclinando-se sobre a cadeira de braços em que se achava sentada, fechou os olhos...

Parecia querer assim cerrar as portas de sua alma a todos os objetos, para embeber-se exclusivamente numa única idéia, em um único sentimento — naquele amor ardente e sublime que lhe votava o moço loiro.

Nos longos cílios de suas pálpebras cerradas viam-se pendendo lágrimas brilhantes... no arfar veemente de seus seios adivinhava-se uma luta de nobres afetos travada em seu coração... Tão enlevada ficou no seu meditar, que talvez fosse uma corrente de ternos pensamentos a que se estava deslizando por diante de seu espírito.

Era já começo da noite: a brisa meigamente brincava com os anéis das madeixas de Honorina, que, vestida com um simples roupão branco, cujo corpinho folgado deixava em perigosa liberdade insinuarem-se as mais encantadoras formas, e sentada perto e defronte de uma janela, por onde vinham alguns raios da lua clara e luzente derramar-se sobre ela, mostrava-se pálida... fantástica... e mais que nunca formosa...

Alguns minutos se passaram... depois as lágrimas caíram dos cílios de Honorina, e não foram novas dependurar-se neles... serenou a tempestade que agitava o seio da virgem... e ela sempre em silêncio... imóvel... respirava apenas.

Tinha involuntariamente adormecido.

Alguns momentos mais... e na porta de um corredor, mercê da qual se comunicavam as duas saletas pelo lado do jardim, deixou-se ver a figura de um mancebo loiro... engraçado e alegre...

Era ele.

O moço loiro foi pé por pé, cuidadoso, e de manso ajoelhar-se junto de Honorina; e ficou breves minutos em encantada contemplação com os olhos embebidos no rosto da virgem, como um pecador aos pés de uma santa.

Depois curvou-se até o chão... beijou com apaixonado gesto a barra do vestido da idolatrada moça, e, olhando-a ainda uma vez radioso de ternura e felicidade, retirou-se tão de manso como viera; e sumiu-se pelo corredor...

Quase ao mesmo tempo Lúcia apareceu na porta da entrada da saleta, e despertou a Honorina.

XXXI

Imposição

Honorina não pôde dormir um só instante durante toda a noite.

O bilhete e ainda mais o livro da alma do moço loiro tinham vindo aumentar os sofrimentos da infeliz jovem; porque, além da expressão viva e terna de um amor ardente e nobre, como o que ela pedira noutro tempo ao céu, amor de poeta e de fogo, aí aparecia uma idéia melancólica, amarga, arrancada talvez da íntima e dolorosa convicção de quem a enunciava: era o profundo sentimento da miséria do pobre.

E essa idéia despótica, terrível, apoderou-se da imaginação de Honorina, pô-la em torturas longas horas de uma noite, desenhou-se com mil formas diante de seus olhos, e pesou sobre seu coração de um modo cruel.

Estimulada por seu amor, levada da nobreza de sua alma, escrava de sua imaginação fervente, Honorina corou, acreditou-se muito abaixo de si própria, não achou uma desculpa para suas hesitações do dia que acabara; e, uma vez desassossegada, possuída de convulso tremor, sentou-se no leito, e com os olhos luzentes, ela um pouco febril e superexcitada, lançou para trás com as mãos as soltas madeixas e, sacudindo a cabeça como se delirasse, exclamou:

(continua...)

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