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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

A sessão custou a ter começo. Afinal o presidente e secretários tomaram seus lugares e a chamada foi feita. Notei que, quase em frente a mim e ao lado da mesa, um pouco distante, havia uma ampla cadeira de balanço, cujo destino ali era difícil atinar.

Lida a ordem do dia, foi anunciado o expediente, e um deputado gritou do fundo da sala:

— Peço a palavra.

No mesmo instante, a cadeira de balanço foi ocupada. Imaginem por quem? Pelo presidente do Estado, o General Contreiras. Estava muito simplesmente vestido, com uniforme de cor cáqui, sem colarinho, em chinelas de marroquim e até o dólmã estava desabotoado. Acudindo o pedido do deputado, o presidente da Câmara falou:

— Tem a palavra o deputado Salvador da Costa.

O deputado não abandonou a bancada e começou com voz cantante:

— Senhor presidente — A cidade de Cubango, uma das mais prósperas do nosso interior, berço de tantas glórias, como Manoel Batista, Francisco Costa, o bravo João Fernandes e outros, acha-se, por assim dizer, completamente isolada do resto do Estado. Chamo a atenção de V. Exa. e da Câmara para isso. As notícias que me chegam, a respeito do estado das estradas que a põem em comunicação com as suas irmãs do nosso torrão natal, são absolutamente desanimadoras. A inspetoria de obras no seu habitual relaxamento...

Por aí, o orador foi interrompido por um vibrante grito do governador:

— Senta-te, Salvador! Fala agora o João.

O deputado Salvador, abandonando o fio do seu discurso, desculpou-se:

— Há de perdoar-me, Senhor General Doutor

Governador. Trato pura e simplesmente de uma questão administrativa. Não há política. O governador não lhe deu ouvidos e continuou a gritar lá da cadeira de balanço:

— Senta-te, Salvador! Não prestas pra nada! Fala agora o João!

Salvador ainda esteve uns minutos em pé sem saber o que fazer, olhando aqui e ali; porém, um berro mais enérgico do presidente fê-lo cair sentado sobre a cadeira, como se tivesse sido derrubado por um raio.

Assisti todo o resto da sessão. Não houve mais a intervenção enérgica do general doutor presidente. Por fim, um deputado apresentou uma moção de congratulação com o coronel Firmino, chefe político em Caxoxó, por fazer anos naquele dia.

Inteirado do funcionamento dos dois poderes do Estado, tendo a respeito tão excelentes notas, quis observar em outra unidade política da Federação a marcha de sua administração. Embarquei para o Estado dos Carapicus, que fica muito ao sul do dos Caranguejos.

Pouco tinha a mais que ver, pois o que me fora dado assistir nos domínios do General Contreiras me pareceu ser o resumo da política estadual; contudo, dispus-me a ver como se passavam as coisas em outro Estado, porquanto podia tomar nota de um ou outro detalhe expressivo.

Não tinha muita esperança nisso, à vista da parecença estreita que têm as partes do Brasil entre si.

Todas as cidades se parecem, tem a mesma fisionomia, possuem casas edificadas da mesma forma e até as ruas têm os mesmo nomes e os apelidos das lojas de comércio são os mesmos.

Um país tão vasto, que se desenvolveu através de climas e regiões tão diferentes, é, entretanto, nos seus aspectos sociais, monótono e uno.

Tinha verificado isso na minha viagem para o Estado dos Caranguejos e certifiquei-me da verdade dessa verificação quando voltei.

Imaginei que a coisa também se desse nos aspectos políticos, mas não quis ficar em suposição e tratei de certificar-me da verdade, vendo os fatos que eram objeto dos meus estudos.

Cheguei a capital do Estado dos Carapicus num domingo à tarde. No logradouro de desembarque, tocava uma fanhosa banda de música e as moças do lugar, muito enfunadas nos seus vestidos domingueiros, passeavam pelo largo com uma satisfação de prisioneiras em temporária liberdade.



(continua...)

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