Por Aluísio Azevedo (1897)
— A senhora não calcula, prosseguiu o outro, quanto me custou convencer àquele pobre rapaz de que era necessário mudar de vida e trabalhar. Ele, coitado, se não tomar já e já uma resolução enérgica, perdese totalmente, porque se irá pouco a pouco arruinando até chegar à completa miséria; é isso o que eu quero evitar. Sinto que estou velho, e preciso morrer descansado. Talvez haja um bocadinho de egoísmo nestas intenções, mas creia que eu trocaria de bom grado o resto da minha existência pela felicidade de Gabriel.
E o Médico Misterioso, depois de assentarse mais perto de Ambrosina, continuou:
— Pois bem! Imagine agora o meu sobressalto ou quando, depois de conseguir de Gabriel sairmos amanhã mesmo do Brasil, e principiarmos, ao voltar, uma nova existência, dou com as palavras que lhe escreveu a senhora!..
E Gaspar leu na carta o seguinte:
"Sei que vais partir amanhã e peçote que desistas de semelhante projeto. Estou hoje convencida de que de não posso passar sem o teu amor, e como a desgraça me fez egoísta, sintome resolvida a desmanchar com um escândalo a tua viagem, e a mim prenderte com mil beijos. Escolhe! Se quiseres resolver as cousas por bem, apareceme hoje mesmo em minha casa. Se me não aparereceres até à noite, irei eu buscarte onde estiveres!"
— Eis aí o que vinha eu pedirlhe que não fizesse... disse humildemente Gaspar. Sei que isso não lhe custará muito, e estou disposto a recompensarlhe esse obséquio com aquilo que a senhora exigir...
Ambrosina conservou por algum tempo o olhar caído, afinal cobriu o rosto com as mãos e desatou a soluçar.
— Sou uma desgraçada, murmurava ela, sacudida pelo pranto. — Sou muito desgraçada!
Gaspar passouse para o divã, e amparoua nos braços.
— Não se mortifique, disse; não se aflija desse modo...
Ambrosina encostouse ao ombro dele e, depois de soluçar dramaticamente, exclamou com uma voz apressada e cheia de choro:
— Não é que o ame! não! Eu nunca amei Gabriel! Mas eu o queria ao pé de mim, pelo simples fato de ser ele o único que me tem verdadeiro amor! Não é pelo desejo de amar que o procuro, mas é pela necessidade de ser amada!
— Ora! Há por aí muito homem que a ame loucamente!...
— Por capricho, por fantasia, ou por vaidade... Eu sou hoje a mulher da moda e custo caro. Amor! Amor por amor, só conto com o Gabriel!
— Em todo o caso, peçolhe que o poupe... Suplicolhe! Façame a vontade! É um velho, é um pobre pai, que lhe pede a felicidade de seu filho. Repare! tenho lágrimas nos olhos. Concordo com tudo que a senhora quiser, cumprirei as ordens que me der, contanto que me poupe o Gabriel!
— E se eu, em troca, exigirlhe uma cousa?... o senhor consentirá?...
E Ambrosina sorriu, com os olhos ainda vermelhos de pranto.
— O que é?
— Uma cousa muito simples... respondeu a rapariga, tomandolhe as mãos; quero...
— O quê?
— Tenho vexame... Não digo...
— Fale, por quem é!...
— E promete não ficar enfadado?... promete não ralhar comigo?...
— Prometo, filha; mas vamos, dize o que queres...
Ambrosina passou os braços em volta do pescoço de Gaspar, e disselhe baixinho ao ouvido, com a voz medrosa e doce:
— Quero que me ame; que seja ao menos muito meu amigo, como noutro tempo...
E, depois de espreitar através dos cílios a atitude do médico, recolheu os braços, fez um ar muito triste, e acrescentou com os olhos úmidos:
— Se soubesse quanto sou infeliz... quanto sou desgraçada!... teria compaixão de mim!
E depois de uma nova pausa:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.