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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 Não ocultou a mínima circunstância; referiu tudo: a sua repugnância de casar com Besita por ela ser pobre; a intenção pérfida com que a requestara; a cilada de que serviuse para surpreender a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento em que a deixou. 

 Que esforço não foi preciso para sobrepujar o vexame dessa revelação? Queimava-lhe as faces o rubor; a voz estrangulava-se; mas consumou esse grande ato de contrição que devia remir sua alma. 

 Quando chegaram à casa, D. Ermelinda sabia tudo. As lágrimas e soluços que tragou em silêncio; as ânsias e desesperos que recalcou no peito, ninguém os viu. Mas a manga de seu roupão que ela mordia para não deixar escapar o grito, ficou despedaçada. 

 Apeando-se, correu a seu quarto e trancou-se. Luís Galvão compreendeu que ela devia sofrer, e respeitou aquela dor santa, não a importunando com banais consolações. Acendeu um cigarro; e velou o resto da noite fumando. 

 Na manhã seguinte cada um dos dois consortes, pálido, como espectro que abandona o túmulo, viu refletir-se no outro a desolação que em si produzira aquela noite fatal. 

 D. Ermelinda chegou-se com um triste, porém meigo sorriso, e apertando a mão do marido, murmurou-lhe ao ouvido: 

 - Meu amigo, é preciso reconhecer a sua... a nossa filha!... 

 Arrasaram-se de lágrimas os olhos de Luís, que apertou estremecidamente a mulher ao coração, erguendo os olhos ao céu. 

 - Que santa me deste tu, meu Deus, a mim que não mereço! 

 Logo depois do almoço, D. Ermelinda foi à casa de nhá Tudinha e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelação que o pai ia fazer-lhe de seu nascimento. Com o tato de mulher e mãe quis a boa senhora poupar à enjeitada a dor que havia de curtir se viesse a conhecer a desgraça de Besita. 

 Imaginou pois um meio delicado de revelar a lúgubre história. Besita casara com Luís às ocultas, por causa da oposição do velho Galvão. Morrendo a moça, e casando Luís pela segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era viúvo e tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada como uma estranha em casa alheia. 

 Eis o que ideara D. Ermelinda, e o que nhá Tudinha, contente pela ventura da menina, mas desconsolada de perder aquela filha, repetiu nessa mesma tarde. As perguntas e instâncias que sucederam à surpresa de Berta, apenas arrancaram da viúva a declaração de que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava. 

 Uma voz íntima dizia a Berta que muita coisa lhe ocultavam da história de sua mãe; e era este segredo que ela buscava escrutar no cérebro enfermo da negra, onde sabia, que estava sepultado. 

 Desde muito tempo tinha ela o pressentimento, de que o terrível drama representado pela estranha mímica da louca, se prendia à existência dela, Berta, por um fio misterioso. Agora tinha a certeza. 

 Cheia de ânsia, em face da negra esfinge que emudecia, lançou a menina em trono um olhar de desespero, e avistou Jão Fera a alguns passos. 

 Teve um assomo de alegria e correu para o capanga; mas recuou horrorizada, e balbuciou apontando para as mãos suplicantes que lhe estendia o Bugre: 

 - Não me toques. Tuas mãos têm sangue!... 

 Caiu de joelhos o facínora, e assim, arrastando-se até os pés de Berta, murmurava: 

 - Por piedade, Nhazinha!... Nunca mais!... 

 Ergueu a menina a fronte resplandecente, como se a cingisse a auréola da caridade. 

 - Tu juras?... Tu juras nunca mais fazer mal a ninguém? 

 - Juro. 

 Tirou Berta do seio a cruz presa com o bentinho ao cordão de ouro; e o Bugre a beijou repetindo o juramento. Depois sacou as armas da cinta, e arremessou-as longe de si. 

 Nesse instante Zana que descobrira Jão atirou-se para beijar-lhe as mãos com fervor; e apanhando a faca, procurou prende-la entre os dedos do Bugre. 

 - Não careço mais, Zana!... Ela está vingada. Posso morrer! 

 Esta cena despertou no espírito de Berta uma recordação. Acudiram-lhe as palavras do caiapó na festa da vila: 

 - Jão, tu conheceste minha mãe! 

 - Quem lhe disse, Nhazinha? 

 - Conta-me como ela morreu! 

 - Não... 

(continua...)

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