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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– E faltou à sua palavra!

– Como é isso?...

– O senhor havia recebido quatro contos de réis para queimar o processo.

– Assim era eu tolo! aqueles papéis são verdadeiras letras de dinheiro, que eu tenho a juros.

– E nem ao menos se lembra de que já não poucas vezes o tenho liberalmente socorrido?

– Sim; mas V. Sa. tem obrigação restrita de pagar-me perdas e danos.

– Em uma palavra e para acabar de todo com estas questões, o senhor quanto quer receber de uma vez por esse processo?...

– Cedendo-lhe todo o direito que tenho a ele?

– Por certo.

– Chama-se a isso queimar a minha fortuna, disse sossegadamente o ex-escrivão.

– Enfim...

– Enfim... dar-lhe-ei esses papéis com a mão direita, exatamente no momento em que V. Sa. me depositar na esquerda uma quantia igual à que me deu o senhor seu pai.

– Quatro contos de réis! é muito!

– Então não temos nada feito. Conservarei o processo.

– Oh! mas é preciso acabar com isto; quando volta o senhor aqui?

– Já disse que dou grande importância aos dias de aparecer: depois de amanhã virei receber as suas ordens.

– Traga-me o processo.

– Dar-me-á os quatro contos? Sim.

– Palavra de honra?

– Sim.

– Bem. Às ordens de V. Sa.

– Até depois de amanhã.

– Mas ah! disse Jacó suspendendo-se, pois que já ia saindo, falta ainda alguma coisa.

– O quê? perguntou Salustiano.

– Os cem mil-réis.

– Ainda!

– São juros vencidos; a satisfação do principal é conta à parte.

– Depois de amanhã...

– Perdoe-me V. Sa., mas eu preciso hoje dessa quantia.

Salustiano arremessou-se para dentro do seu quarto; Jacó estendeu o pescoço, e viu o mancebo abrir uma carteira de jacarandá já meio usada, e tirar dela alguns bilhetes.

Salustiano, na agitação em que estava, deixou a chave na carteira, e voltou ao gabinete com o dinheiro.

– Eis aqui os cem mil-réis, disse ele entregando os bilhetes a Jacó.

O ex-escrivão, apenas recebeu o dinheiro, tomou o chapéu, fez uma profunda cortesia ao moço, e foi saindo.

Salustiano o seguiu de perto, e desceu com ele as escadas.

Pouco depois de haverem os dois deixado o gabinete, entrou João.

O velho ia sentar-se na cadeira que pouco antes havia ocupado, quando notou que a porta do quarto de Salustiano estava aberta.

Dirigiu-se imediatamente para o quarto, e apenas chegou ao limiar da porta, soltou uma exclamação:

– Enfim!

E lançou-se para a carteira. Abriu-a, apertou com o dedo polegar uma mola que havia do lado esquerdo, e no fundo da gaveta desse lado abriu-se um escaninho.

Com prontidão e destreza tirou o velho alguns papéis, que aí se achavam. Eram pela maior parte cartas.

João as foi examinando, e passando por elas sem abrir, até que parou em uma que não tinha sobrescrito.

– 12ª! exclamou o velho; enfim!

Abriu a carta e leu:

“Senhor, maldita seja a hora em que nos vimos. Esse amor fatal com que eu vos amava, e que fingistes votar-me para que eu me perdesse, se já desapareceu para nós, a nós deve ter deixado o tormento dos remorsos. Vós me fizestes a mais desgraçada, e eu me fiz a mais criminosa das mulheres. Vós me perdestes, e eu ia ser mãe, e não quisestes ser diante dos homens o pai de vosso filho. Pois bem, sabeis o que eu fiz? tremei... horrorizai-vos: eu matei meu filho; dentro de meu ventre cavei-lhe a sepultura. Agora... preparemo-nos. Teremos de dar contas a Deus, vós da honra, da inocência de uma mulher, e eu da vida de um inocente. Senhor... somos dignos um do outro; nasceram para se encontrar no mundo vós e

Mariana.”

– Enfim, repetiu o velho guardando a carta no bolso.

– Enfim!... bradou Salustiano lançando-se sobre João.

O velho recuou dois passos.

– Que veio fazer aqui? perguntou o moço.

– Vim realizar o que desde muito premeditava, respondeu friamente o velho.

– Que tirou daquela carteira?

– O que não lhe pertencia.

– Uma carta!

– Sim.

– Restitua-ma.

– Não.

– Oh! Sr. João!...

– Não, já disse.

– É porque não sabe que essa carta é tudo para mim.

– É por essa mesma razão.

– Por bem ou por mal, senhor, eu hei de reconquistar essa carta.

– Veremos.

– O senhor abusa do respeito que sempre lhe consagrei.

– E o senhor desonra o nome de seu pai.

– A carta!

– Nunca.

Salustiano atirou-se sobre o velho; os braços de ambos se entrelaçaram; e lutaram.

Longa foi a luta, e por fim triunfou o mancebo.

Com um joelho sobre o peito de João, Salustiano bradou-lhe:

– A carta!

– Nunca! respondeu o velho com voz sufocada.

(continua...)

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