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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Maldito seja o homem que primeiro inventou essa palavra infernal, que exprime uma blasfêmia!...

E, todavia, eu a estou ouvindo a todo o instante dentro do coração!... oh! é horrível!... ver o homem perto de si uma mulher bela... amá-la, e supor que é também amado... não conceber sem ela felicidade nesta vida, e sentir o homem, o homem que tem direito de procurar ser feliz, sentir que o destino vai levantando entre ela e ele uma barreira insuperável!... que a desgraça vai murmurando aos ouvidos dele e dela nunca!... nunca!... impossível!... impossível!... oh!... é muito horrível, meu Deus!...

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E o que poderá fazer essa interessante moça, que vê as lágrimas de seu pai, e pressente sua miséria?... e que se não ceder às inspirações da virtude?...

Portanto, também a mesma virtude se opõe ao amor que me abrasa!... e eu que me achava com forças de disputar a posse de Honorina ao mundo inteiro, devo e hei de abaixar a cabeça à filha do céu!...

Não há nada, não; não há meio nenhum!... em minha própria imaginação eu não encontro um único remédio!...

Um só... talvez... se eu fosse rico!...

Oh!... tenho-me lembrado de sair por essas ruas, gritando: — quem quer comprar um homem de honra?... mas ninguém daria por mim tanto quanto é preciso para salvar o pai de Honorina!... e, contudo, existe no meu coração um amor generoso e nobre que vale mil vezes mais do que todos os tesouros do universo...

Meu Deus!... meu Deus!... como há de ser a minha vida de agora por diante?!...

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No primeiro instante turvou-me o espírito a idéia do suicídio... mas logo depois a imagem de Honorina veio apagar o sinistro pensamento; foi ela o anjo de minha guarda que arrojou para longe a tentação do demônio... foi como um vento benigno e saudável que desfez a nuvem negra prenhe de tempestade e de horrores...

Agora só me ficou o coração cheio de agonia profunda... incurável... que não há de acabar, nem diminuir nunca; se eu vivesse ainda cem anos, no dia que completasse um século teria aí a mesma agonia, com a mesma intensidade, profunda... incurável sempre, como há cem anos antes...

Mas por que desejar a morte?... o mimoso sentimento que fez a minha ventura de alguns dias, nem sofreu a injúria de um desprezo, nem a injustiça de uma ingratidão; cedeu ao império de um dever... duro, porém sublime. O sacrifício deste amor é a demonstração de sua pureza e santidade!...

Minha alma repassada de dores aparece no meio de suas angústias, inocente e cândida, como o formoso e angélico semblante de uma virgem cristã, que morre pela fé, brilha com os raios da divina graça por entre as chamas da fogueira do martírio...

Há também orgulho na desgraça não merecida... e esse orgulho deve ser capaz de animarme nos dias de torturas, por que vou passar, como a esperança da eternidade infunde coragem no homem injustamente condenado, que de cima do patíbulo diz o adeus derradeiro ao mundo...

Sim! devo viver, para que minha alma provada na abnegação e nos tormentos se ostente com seu amor mais que nunca puro, imenso e radioso, semelhante ao pirilampo que tanto mais brilha quanto mais negra e obumbrada é a noite; semelhante às plantas aromáticas, que tanto mais recendem quanto mais as pisam e maceram...

Devo viver, porque pobre... desgraçado... miserável e rude, o único objeto que eu tenho para oferecer e votar a Honorina é a minha vida; e quem sabe se um dia o triste presente não poderá ser apreciado?... neste mundo desleal e insano, a mulher, que enquanto menina é sempre um anjo que se sorri; e quando chega a senhora é às vezes uma vítima que chora; tem tantos perigos a correr, tantas borrascas a assoberbar, que lhe deve ser grato contar com um homem pronto a morrer por ela.

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Possa a dedicação de minha vida ser tão bem-aceita por Honorina, como deve tê-lo sido pela virtude o sacrifício do mais ardente amor!...

E o lugar, que no meu coração era ocupado pela esperança do amor de Honorina, seja hoje consagrado a uma nova esperança... a de morrer por ela.

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Arrastemos os dias pois...

Até que enfim, se no caminho da vida de Honorina estiver aberto um abismo, e além dele lhe seja preciso ir, passe-o ela segura e salva por cima do meu cadáver, como sobre a tábua de uma ponte.

(continua...)

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