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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Para isso, além do seu cinismo em afirmar, o tal delegado empregou a coação e a ameaça sobre os depoentes, pobres operários que eram obrigados a dizer tudo o que convinha à autoridade.

Não contente com isso, dividiu o Estado em vários distritos agrícolas, à frente dos quais pôs um inspetor e meia dúzia de auxiliares; todos capangas seus, que se encarregavam de esbordoar aqueles que demonstrassem de qualquer modo não concordarem com “o salvador”.

As reclamações choviam e os delegados policiais faziam inquéritos onde diziam que não havia nos casos coisa alguma de política, mas simples rixas por questões de mulheres ou de família.

Reparei que havia nesses ditadores todos um terror extremo diante da lei que violavam. Não tinham coragem de fazê-lo francamente, claramente, ousadamente; mascaravam as suas violências, os seus assassinatos, com subterfúgios legais e outros, falando sempre em liberdade, em ordem, em paz e prosperidade.

Tive vontade de visitar o governador e pedir-lhe uma audiência, mesmo porque, se não o fizesse, corria perigo a minha segurança.

Já começavam a desconfiar “daquele estrangeiro”. Isto é, de mim, mas o estrangeiro não significava estranho ao país. mas ao Estado.

Vi-me muitas vezes seguido por tipos suspeitos, e à vista disso, declarei a minha qualidade de oficial e pedi uma audiência ao governador. Ele ma deu sem demora e pude conversar com ele.

Não se imagina homem mais comum, de feições e inteligência. Não lhe pode sacar nem uma idéia sobre a administração e o governo. Ele só me dizia:

— Este Estado tem sido muito roubado. Agora a coisa vai entrar nos eixos. Sou honesto e não consinto que ninguém roube à minha sombra.

Quando lhe falei sobre a miséria da população, na lamentável impressão que isso fazia a quem vinha de fora, ele me disse:

— É... É... São uns madraços. Estou tratando de fundar uma colônia correcional.

Aquele homem não via que era o próprio governo quem criava aquela situação; que era, além de outras coisas, a quantidade formidável de impostos cobrados pelos governos municipal, estadual e federal?

Perguntou-me então pela política central, se o Sofônias era muito poderoso, se faziam muita oposição a ele, governador. Disse-lhe que os jornais do Rio atacavam-no muito e ele observou:

— Sei... Sei.... A culpa é do Simplício (o presidente) que não os faz calar...

Tomou por aí uma expressão feroz que trouxe à lembrança do russo Tamerlão e Gengis Khan.

Despedi-me governador, e, no dia seguinte, para completar as minhas notas, fui assistir a uma sessão da Câmara dos Representantes.

A Constituição do Estado, moldada na Federal, estabelecia a independência e a harmonia dos poderes estaduais, que eram o judiciário, o executivo e o legislativo.

O Estado não tinha Senado e o órgão do seu poder legislativo era unicamente a Câmara dos Representantes, que funcionava numa ala do palácio do governador.

A sala não era apropriada ao seu destino, mas era ampla e bem iluminada; e, como já fosse conhecida a minha qualidade, deram-me uma espécie de camarote, ao nível do recinto, a que chamavam de tribuna.

Cheguei cedo e pode ver a entrada dos deputados. Havia alguns jovens bacharéis e tenentes, muito pimpantes nos seus trajes à última moda, e havia também aqueles curiosos tipos de coronéis de roça, que vinham às sessões em terno de brim, com botas de montar e a açoiteira de couro cru, pendendo na mão esquerda, presa por uma corrente ao respectivo pulso.

Eles chegavam e se espalhavam pelas bancadas, conversando e fumando. Junto a mim, havia dois, uma dos quais lia, à meia voz, um artigo de jornal para o outro ouvir.

Não passavam de vinte e tantos e eu perguntei a alguém se era aquele o número exato de representantes. Foi-me dito que não, que eram quarenta e cinco, mas que só pouco mais da metade freqüentavam as sessões. Os outros, acrescentou o meu informante, ficavam nas suas fazendas e mandam unicamente receber o subsídio por seus procuradores bastantes.



(continua...)

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