Por Aluísio Azevedo (1897)
— Bem; com licença! já se conhecem, vão conversando, disse a dona da casa, saindo a correr, porque ouviu na sala de jantar a voz de uma mulher, que acabava de entrar familiarmente.
Os quatro homens ficaram a olhar por um instante uns para os outros, em uma perturbação cerimoniosa. Mas entrou um criado, a oferecer chá com leite frio, e o Reguinho foi assentarse ao lado de Gaspar e perguntou por Gabriel.
— Ah! partem amanhã? ora, eis aí o que eu não sabia... disse o Rêgo, depois de ouvir a resposta do médico.
E ofereceu logo magníficas cartas de recomendação para vários pontos da Europa. Tinha muitos conhecidos, amigos, parentes até, gente toda de grande importância! Gaspar aproveitaria muito com aquelas cartas!
O médico desembaraçavase do obséquio; dizia que a viagem era rápida, de passeio, não valia a pena o Rêgo incomodarse...
Mas este, com a recusa, redobrou de oferecimentos, e contou depois que estava associado com o pai numa grande empresa que os faria milionários. — Menino! Queremos dinheiro! Queremos dinheiro, sebo! rematou ele, sempre a chupar os dentes.
Pouco depois, tornou Ambrosina; estivera a falar com a modista; as visitas que a desculpassem.
E voltandose para Gaspar com muita camaradagem:
— Então? que milagre foi este! lembrarse dos amigos velhos?...
E acrescentou em tom grave, dirigindose aos outros:
— Salvoume a vida! Estive à morte com uma fúria do maluco de meu marido! (E verdade, como vai ele?) perguntou ela a Gaspar e, informada de que Leonardo estava agora no Hospício de Pedro II, continuou, suspirando saudosas recordações: — Serei sempre reconhecida por esse serviço... Além do que, o Dr. Gaspar foi noutro tempo muito meu amigo, davame bons conselhos, ralhavame às vezes...
E Ambrosina faziase muito amiga, muito camarada de Gaspar.
— Não sei como este ingrato se lembrou de vir cá!...
— É que lhe tenho de falar... em particular...
E como ela fizesse um movimento malicioso:
— Descanse, estou velho, não farei ciúmes a ninguém...
— Por mim, não os importunarei, declarou o Coelho Rocha, levantandose com seus bigodões. Esperamme para jantar.
— Eu também vou, disse o Lopes Filho, imitandoo. E foram beijar a mão da Ambrosina.
— Visto isso... acrescentou o Reguinho, depois de chupar os dentes.
— Mas eu, nesse caso, vim incomodálos... Minha visita é rápida... observou o médico.
Seguiramse grandes protestos de cortesia. Houve risos, apertos de mão, oferecimentos de casa, e afinal os três deixaram o campo livre.
— Venha para cá, doutor. Ficamos aqui mais à vontade, disse Ambrosina, passando o braço na cintura de Gaspar e conduzindoo para um gabinete reservado. Agora, bem! Podemos livremente conversar.
E fechou a porta.
O Médico Misterioso não tinha ainda voltado a si do pasmo, que lhe causava tão inesperado acolhimento por parte de Ambrosina. Ele, que se lembrava ainda muito bem das suas últimas cenas com ela, pensou encontrála pouco disposta a atendêlo, e eis que a caprichosa rapariga lhe dispensava agora todas aquelas amabilidades e se mostrava como nunca atenciosa.
— Ainda está muito zangado comigo?... perguntou ela, assim que os dois se viram a sós no gabinete.
— De forma alguma! respondeu Gaspar, e confesso que não contava ser tão bem recebido.
— O passado, passado! Não pensemos mais em tal. Além disso, naquela época, o senhor tinha toda a razão; eu é que era uma estonteada.
— Valhanos isso! Estimo encontrála em tão boa disposição. Sabe? espero sair daqui devendolhe um grande obséquio...
— A mim?... Qual é?...
— Vai saber...
E o médico tirou da algibeira a carta, que tão engenhosamente havia substituído pela outra que rompera.
— Eu surpreendi esta carta sua, dirigida a meu enteado, guardeia, e depois a li, com o consentimento do dono...
— Ah! E ele?...
— Ele não a leu...
— Não leu, por quê?
— Porque não deixei, ou porque ele não quis.
— Não quis como?...
— Para agradarme, naturalmente; mas, como tenho pouca confiança em tudo isso, venho pessoalmente pedirlhe que...
— Que...
— Que desista das ameaças que aqui estão escritas, nem só porque me intimida o escândalo iminente, como porque sei também que Gabriel não resistiria a tal provocação e acabaria por atirarse novamente a seus pés...
Ambrosina não respondeu. Estava assentada num divã muito baixinho e fitava preocupadamente um ponto no chão.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.