Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo foi um sacerdote muito respeitável e um cidadão que prestou ao país não poucos serviços. Foi, por bastantes anos, membro da assembléia provincial do Rio de Janeiro, a qual presidiu por vezes. Na primeira eleição que se efetuou logo depois da declaração da maioridade de S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro II, mereceu ser eleito deputado à Assembléia Geral pela mesma província do Rio de Janeiro. Não pôde, porém, assinalar-se na câmara temporária, em conseqüência da dissolução da câmara, que se efetuou estando ainda esta em sessões preparatórias, o que deu lugar a que o ilustre Martim Francisco Ribeiro de Andrada, que presidia a assembléia, denominasse esse fato uma dissolução prévia.
O padre Santos Lobo ocupou também durante algum tempo a presidência da província do Rio de Janeiro.
Foi sempre contado entre os membros distintos do Partido Liberal, e era por todos estimado e respeitado, porque não houve jamais quem pusesse em dúvida a sua inteligência esclarecida, o seu patriotismo, a sua honradez e o seu coração cheio de bondade.
Morreu este digno cidadão no ano de 1857, e os seus restos descansam na cidade de Magé.
Continuo com a resenha dos retratos.
O sexto retrato é o do venerando bispo atual do Rio de Janeiro, o Sr. Conde de Irajá.
O sétimo, enfim, é o do Monsenhor Antônio Vieira Borges, outro benfeitor da instituição e do patrimônio dos padres e irmãos pobres.
Destes retratos, alguns dos quais talvez seja de simples fantasia, suave engano desculpável pela gratidão que o inspirou, sei que o do sargento-mor Resende é obra do Sr. Mafra, o estimável artista, digno secretário e professor da nossa Academia das Belas-Artes. O do Monsenhor Antônio Vieira Borges, trabalho do Sr. Istaloni. Os do Bispo D. Frei Antônio de Guadalupe e de Manuel Vieira dos Santos, obras do Sr. Manuel Pereira Reis, e os do padre Francisco Barreto de Meneses e do padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo devidos à paleta do Sr. Pedro Américo de Figueiredo e Melo.
O Sr. Mafra e o Sr. Istaloni são artistas desde muito tempo conhecidos e apreciados, e não precisam que eu me ocupe em dar informações a seu respeito.
Os Srs. Reis e Américo são jovens, e ainda novos em suas carreiras, e a ambos dedicarei algumas linhas.
Não creio que os retratos de que falei, e que a irmandade de S. Pedro deve a estes dois jovens, possam considerar-se obras de um grande valor artístico. Premissas animadoras, porém, de belos talentos, servem para dar-nos uma idéia da natureza feliz, da inspiração e da habilidade desses nossos patrícios.
O Sr. Manuel Pereira Reis, atualmente professor de desenho na Escola de Marinha, é natural da província da Bahia. Filho de um livreiro estabelecido na cidade de S. Salvador da Bahia, o Sr. Pereira Reis, impelido pelo coração, divertia-se horas inteiras a desenhar, copiando as estampas que encontrava nos livros e que mais o impressionavam. As suas disposições foram logo conhecidas e o seu talento aplaudido. Em 1855, o flagelo do cólera-morbo roubou-lhe seu pai. Em março de 1856 veio para o Rio de Janeiro, e matriculando-se na Academia das Belas-Artes, foi nela um dos melhores alunos e obteve diversos prêmios, sendo no primeiro ano aprovado com louvor no exame de matemáticas, que ele fez em presença de S. M. o Imperador.
O Sr. Manuel Pereira Reis conta hoje vinte e três anos de idade, e é, como disse, professor de desenho da Escola de Marinha, o que é uma prova do seu merecimento.
O Sr. Pedro Américo de Figueiredo e Melo é natural da província da Paraíba do Norte, donde veio para o Rio de Janeiro em 1855, em conseqüência das proezas que fazia, pintando quanto lhe vinha à cabeça, sem ter mestre que o dirigisse. Realmente, era um menino que parecia ter nascido artista. Tinha tanta imaginação como espírito, e já manejava a caricatura com habilidade.
Em 1855, matriculou-se na nossa Academia das Belas-Artes, e a freqüentou com notável aproveitamento e assiduidade até meados do ano de 1858, tempo em que começou a não comparecer por ter sido atacado de teimosos incômodos do fígado.
Entretanto, fora sempre o primeiro estudante da sua turma, e em todas as aulas que tinha cursado constantemente obtivera prêmios. No primeiro ano fizera, como fez depois o Sr. Pereira Reis, exame de matemáticas em presença de Sua Majestade o Imperador e também merecera aprovação com louvor. E, enfim, estudando as belas-artes, não se descuidara nunca de aprofundar os seus conhecimentos nas matemáticas e na ótica.
Um jovem de tantas esperanças não devia parar no caminho por onde tão brilhantemente avançava.
Sua Majestade o Imperador, à custa do seu bolsinho, mandou o
Sr. Américo completar os seus estudos na Europa; e em março de 1859, partiu o
nosso talentoso patrício para o velho mundo, e ainda agora lá está em Paris,
onde tem feito muitos progressos, especialmente na pintura histórica.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.