Por José de Alencar (1875)
O quarto ainda estava escuro. A donzela supôs que Águeda tivesse passado mal a noite e não quis incomodá-la. Mas à hora do almôço não a vendo aparecer, nem abrir-se a porta do aposento, assustou-se e foi ter com a mãe.
D. Genoveva acudiu logo; ao repetido bater, ouviu-se um ligeiro rumor, e pouco depois a voz da viúva, que arrastou-se até à porta e a abriu.
Quando as mãos de Arnaldo afrouxaram deixando rolar pelo chão o corpo da cigana, ainda esta respirava, embora pouco faltasse para exalar o último alento.
Por algum tempo ficou prostrada e sem acôrdo, como um cadáver; mas aos poucos o ar penetrou nos pulmões, restabeleceu-se a respiração; e ela caíu no torpor de que a veio tirar a dona da casa, assustada com um sono tão prolongado.
Desculpou-se a viúva com uma dôr violenta que a desacordara e nem tempo lhe deixara de meter-se na cama. D. Genoveva imediatamente recorreu aos seus remédios caseiros; mas a doente os dispensou, dizendo estar habituada àquele achaque, o qual lhe passava com um cordial e algumas horas de repouso.
Tomou um chá de língua de vaca, e deitou-se. Não dormiu porém; os pensamentos tumultuavam-lhe.
Pensou que era o momento de jogar a última cartada. Arnaldo, naturalmente receoso do que fizera, talvez se ausentasse da casa nesse dia: era preciso aproveitar o ensêjo.
Mandou chamar o velho que a acompanhara:
— José, há tempo de avisar o Onofre para esta tarde?
— Êle está alerta, bastam três horas e ainda falta muito para meio-dia.
— Pois então vai. Sabes o lugar?
— A gameleira.
Águeda comfirmou com a cabeça.
— Desta vez não nos escapará.
A rapariga estava ansiosa de vingar-se em Flor do insulto de Arnaldo. Nesse instante ela odiava o sertanejo, porém odiava ainda mais a mulher por quem êle a desprezara.
O cigano deixando a irmã foi ao pasto, onde estava o cavalo que trouxera Águeda, deu-lhe dois nós nas crinas e fez-lhe tais gatimanhas e partes, que o animal partiu de carreira pelo tabuleiro afora.
Depois de duas horas de repouso, a cigana ergueu-se com esfôrço e acompanhou Flor à mesa do jantar, para fortalecer-se com algum alimento de que precisava, pois sentia-se como extenuada.
À tarde, pretendendo que o exercício lhe faria bem, convidou a filha do capitão-mór para saírem a passeio.
Alina achou um pretêsto para eximir-se de acompanhar Flor; a sua antipatia pela viúva bem longe de se desvanecer com o trato, ao contrário crescia.
Águeda e Flor desceram ao tabuleiro, o José oculto entre as árvores trocou um sinal com a irmã, e desapareceu na mata. Ia ao encontro do Onofre para guiá-lo ao sítio.
Foi justamente por êsse tempo que Arnaldo e Jó saíram da caverna. Não tinham andado cem passos, quando o mancebo parou assaltado por uma idéia terrível.
— Segue, Jó! Eu vou à casa.
Com efeito encaminhou-se direito à habitação da fazenda, tomado de cruel pressentimento. Ao meio do tombador encontrou a Justa:
— Onde está Flor?
— Passou agora mesmo com a viúva.
— Agora? Para lá?…
— Que modos são êstes de assustar a gente!
— Corre, mãe, e diz ao capitão-mór que venha salvar a filha, pois a querem roubar.
— Flor!… Roubar Flor!… Minha Nossa Senhora da Penha de França, valei-me!
A sertaneja a tremer com o susto não sabia que fazer, se correr à casa para avisar ao capitão-mór, ou seguir o filho em busca da donzela. Afinal tornou para a fazenda, mas a cada instante parava, soltando brados descompassados.
— Flor!… sr. capitão-mór!… Acuda à sua filha!… Acuda à Flor, que a levam! Ai, meu Jesús!
Entretanto Arnaldo, cuja suspeita se confirmara com a informação que lhe dera a mãe, rompia o mato na direção da gameleira, onde esperava encontrar a donzela e a viúva que êle sabia agora ser emissária de Fragoso.
Aos gritos de Justa acudiram afinal umas escravas, que alvoroçaram a casa, mas sem explicar a novidade de que davam rebate. Ouvia-se o nome de D. Flor repetido de todos os lados e entre clamores de susto, mas o que sucedera à donzela, ninguém sabia, senão a Justa, que ainda não saíra do seu desatino.
Afinal chegou a nova ao capitão-mór que estava do outro lado nos currais em companhia de D. Genoveva. O Campelo, não podendo conceber que um perigo qualquer ameaçasse a filha, alí na Oiticica, junto dele, dirigiu-se à casa com a costumada solenidade, contando achar alí Flor.
Quando, porém, a Justa, ainda atarantada, conseguiu dar-lhe o recado de Arnaldo, e êle percebeu o que havia ocorrido, abalou de carreira para a mata, gritando à mulher com uma voz de trovão:
— Meu bacamarte, D. Genoveva! O Jacaré!
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.