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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Era ele baixo, um pouco gordo, e um pouco calvo; tinha olhos vivos, e mostrava-se alegre. Vinha vestido de fraque roxo abotoado até em cima, e de calças pretas. Calçava botinas de cordovão de lustro, e chamava-se Jacó.

Já não pode haver dúvida nenhuma; era o escrivão que morava na rua de...

exatamente defronte do “Céu cor-de-rosa”.

Travou-se entre Jacó e Salustiano a seguinte conversação:

– Muito bem, senhor Jacó: o senhor é sempre pontual.

– É um hábito da vida passada; quando eu era escrivão, chegava à casa dos juízes sempre dez minutos antes da hora das audiências.

– Não é esse o seu único mérito: o senhor é capaz de descobrir o maior segredo deste mundo.

– A vida passada! a vida passada! o tino, a prática dos interrogatórios...

– Vamos pois; que notícias me dá?

– Poucas, porém boas.

– A elas, meu caro.

– Ontem, depois das onze horas da noite, a lua estava clara como o dia...

– Dispenso todos os segredos que o senhor possa ter descoberto na lua.

– Hábitos da vida passada! nos corpos de delito o luar é uma circunstância que sempre se faz notar... as vezes importa muito.

– Adiante.

– Bem: pouco depois das onze horas da noite saiu do alpendre do “Céu cor-de-rosa” um vulto de mulher...

– Oh!

– Envolvia-se em uma mantilha: era com efeito uma mulher.

– Está bem certo disso?

– Sim; o andar era majestoso e engraçado... aquela mulher nunca tinha usado mantilha.

– Por quê?

– Porque envolvia-se nela como em um xale. Mas o andar, que era majestoso e engraçado, era ao mesmo tempo tão delicado, as passadas tão curtas e ligeiras, que não podia deixar de ser o andar de uma mulher.

– Bem; e depois?

– Foi direitinha à porta do “Purgatório-trigueiro”.

– Ah!

– Tirou debaixo da mantilha e estendeu para fora um lindo braço, e com formosa mão...

– Então viu também que o braço era lindo, e a mão formosa?

– Sem dúvida; porque em um dos dedos dessa bela mão havia um anel de brilhantes.

– Oh! que homem admirável; até nisso reparou! como pôde ver esse anel?

– Brilhou, como só brilha uma pedra de alto preço.

– Está bom... deixemos o anel.

– Ao contrário: o anel é uma circunstância muito importante. Ele só, vale uma prova no libelo acusatório.

– Por quê?

– Porque a viuvinha recebeu há três dias da mão de seu noivo um anel de brilhantes, e não o tirou mais do dedo.

– Como soube disso?

– Uma escrava da viuvinha o contou lá à senhora.

– Por conseqüência?

– Por conseqüência recaem todas as suspeitas sobre a viúva.

– E que mais?

– A mulher de mantilha bateu à porta do “Purgatório-trigueiro”, abriram-lha, ela entrou, e esteve lá mais de uma hora.

– E depois?

– Voltou para o “Céu cor-de-rosa”.

– Não sabe mais nada?

– Sei que a tal senhora tirou a mantilha dentro do “Purgatório-trigueiro”.

– Isso importa pouco; mas como o soube?...

– Porque, quando ela foi para lá, a mantilha arrastava pelo lado esquerdo, e quando voltou, estava muito mais curta desse lado, e ia varrendo a rua pelo outro.

– Sabe só isso?

– Não: sei ainda mais alguma coisa.

– Vá dizendo.

– O velho coruja vai todos os dias conversar com a velha bruxa.

– Ontem?

– Esteve lá ao anoitecer.

– Hoje?

– Para lá foi ao romper do dia.

– De que tratou?

– Sempre do amor do enjeitado e da órfã.

– De que trataram hoje? o que disseram?

– Não pude saber: o diabo da velha, quando o coruja entrou, mandou a negra fazer as compras para o almoço.

– Tem ainda alguma coisa a esse respeito para dizer?

– Por hoje mais nada.

– Então pode voltar depois de amanhã às mesmas horas.

– Serei pronto. Nunca me esqueço o quanto convém ter em lembrança os dias de aparecer nos casos de apelação.

– Estamos justos.

As últimas palavras de Salustiano significavam uma despedida; mas Jacó ficou firme em sua cadeira com o semblante prazenteiro, e os olhinhos vivos como sempre.

Salustiano pareceu incomodar-se com a demora de Jacó, e disse:

– Quer mais alguma coisa?

– É provável.

– Diga.

– Quero que me dê cem mil-réis.

– Oh! há três dias que lhe dei igual quantia.

– Sim, respondeu o ex-escrivão soltando uma risada; mas V. Sa. esquece-se de que agora temos dois negócios.

– Dois? como é isso?

– Pois então?... agora tem V. Sa. de pagar-me o trabalho de ser o espião de polícia e dos seus amores.

– Convenho.

– E depois... aqueles papéis...

– Oh! o senhor é exigente demais! por aqueles papéis, disse Salustiano empalidecendo, deu-lhe meu defunto pai por uma só vez quatro contos de réis.

– Sim... sim... mas por causa daqueles papéis estive na cadeia oito meses e perdi o meu querido ofício.

(continua...)

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