Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Tenho sido tão ousado, como feliz! em meus sonos de mancebo jamais sonhei gozar tantas delícias, como as que me tem dado a realidade deste amor.
Escreverei aqui a história da minha vida, desde que me fiz cabeleireiro, até que fui velho pescador.
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........ A minha sempre-viva caiu dentro de sua câmara... a seus pés!... sua mão ia talvez lançá-la fora, quando valeu-me o zéfiro da manhã... e, portanto, esse zéfiro será sempre para mim o sopro de Deus!
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Salvei-a!... salvei-a!... como me encho de orgulho! como me considero coberto de glória!... é um homem pobre... desvalido... sem amigos, só no mundo, que se entusiasma por ter arrancado das garras da morte a obra mais perfeita do Criador!...
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Eu receio estar cometendo um sacrilégio... eu tenho medo de que o céu me castigue... porque ouso pensar que sou amado!...
Meus Deus! se isso não é verdade, deixai-me ir gozando meus dias embalado por tão doce mentira...
Já agora viver sem essa deliciosa ilusão é um impossível; é o único sacrifício que eu não faria a Honorina.
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VI
O que seria do homem sem o amor da mulher?
Ir até o fim dessa longa viagem da vida, que se começa chorando, e se acaba com um gemido; contar tantos anos, em que algumas horas de ventura são sufocadas pela corrente imensa desses dias de infortúnios, fora certamente impossível, se não houvesse desejos na alma, e esperança no coração do homem.
E a mulher é a fonte das mais doces esperanças, e o objeto dos mais ternos desejos.
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Deus tinha previsto que a vida com tantas tempestades se tornaria desagradável, enfadonha ao homem; que o mundo tão semeado de abismos seria um perigo para a virtude; e assoprou na alma do mesmo homem uma chama sagrada, que alimenta a virtude: — é a esperança da eternidade —; e plantou-lhe no coração um sentimento generoso e nobre, que sabe prendê-lo à vida: é o amor da mulher.
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E o homem deve ser para a mulher como o favônio da aurora ou o orvalho da noite são para a flor; porque também ela é para o homem, como a flor para o prado, a fragrância para o zéfiro, o sorriso para os lábios, e a ventura para o coração.
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Seja, portanto, a alma do homem uma harpa harmoniosa; e converta ela seus pensamentos todos em hinos jamais interrompidos, e votados sempre à mulher!...
VII
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VIII
A desgraça veio sobre mim imprevista, inesperada como o raio; furiosa, terrível, como o
tigre.
Não há mais esperança para mim.
Estou outra vez no que era dantes; estou de novo nas trevas; e minha posição é agora dobradamente cruel; porque a luz já tocou meus olhos... e, portanto, posso avaliar o bem que tenho perdido!...
Ah!... o homem que nasce cego é menos infeliz do que aquele que cega depois de ter visto; o primeiro não goza nada... mas também não conhece o valor daquilo que não goza!... Para que ouvi eu a voz, vi o rosto, e compreendi a alma dessa mulher-anjo, que nunca poderá derramar vistas de amor sobre meu rosto?
Pobre de minha ilusão!... foi como o sonho da noite que se esvai ao romper da aurora!... desfez-se ante a força da realidade, semelhante a esses lagos encantados de orvalho, que se vêem nas invernosas manhãs de junho e que pouco depois se derretem sob a influência dos raios do sol!...
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Impossível!... impossível!... impossível!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.