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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Acredita que é! Digo­te até com franqueza que a mim mesmo não perdôo haver­me iludido tanto! Não sei onde diabo tinha eu a cabeça para me deixar influenciar tão estupidamente por uma mulher medíocre, porque, afinal de contas, como ela se encontram mil a cada passo!...

— Ora! não sentes o que está dizendo!...

— Verás!

— Afianças então que já não sentes cousa alguma por Ambrosina?...

— Ó homem! como queres que te diga que não?!

— Pois então, sabe de uma cousa — tenho aqui uma carta dela para ti...

— Hem?! perguntou Gabriel, com um espontâneo movimento de interesse; mas, caindo logo em si, acrescentou com indiferença: — Ah! podes lançá­lo à rua, porque não a lerei...

— Dás­me então licença que a abra?...

— Toda!

— Porém, com a condição de te não dizer o conteúdo...

Gabriel respondeu com um gesto de desdém. Gaspar rompeu o sobrescrito, desdobrou a carta e leu­a. Mas, à proporção que seus olhos a devoravam, uma ligeira palidez ganhava­lhe a fisionomia.

— Cortesias!... disse ele depois, fingindo tranqüilidade; uma carta de cumprimentos...

E, antes que o rapaz cedesse à tentação de lê­la também, já o médico a havia substituído por outra, que rasgara em pedacinhos e lançara pela janela.

— Bom! disse afinal, tomando o chapéu e a bengala. Posso então contar contigo amanhã?

— Pela milésima vez: sim! respondeu Gabriel.

— Bem. Até logo.

— Adeus.

E quando o padrasto já transpunha a porta:

— E verdade! onde jantas hoje?

— No Mangini.

— Pois até lá.

Gabriel estendeu­se na sua poltrona, deixou cair para trás a cabeça, e espetou o teto com o mesmo olhar dos últimos capítulos.

Entrementes, Gaspar ganhava a rua, e tomava o primeiro tilburi que lhe passara perto.

— Largo do Rocio n. tal, disse ele ao cocheiro, depois de consultar a carta de Ambrosina.

O carro disparou. Pouco depois, o Médico Misterioso era conduzido, por um criado inglês, para uma saleta de espera da casa da Condessa Vésper, cujo luxo caprichoso e de primeira mão o perturbou levemente.

XXXVIII

EM CASA DA CONDESSA

Ouvia­se conversar, por entre risadas, na sala próxima.

Do som das vozes de homem destacava­se o metal estridente de uma garganta feminina.

— Quer falar à Sra. Condessa? perguntou o criado em inglês.

— Sim, respondeu Gaspar, dando o cartão.

E notou que, daí a pouco, a conversa da sala próxima era interrompida e logo ouviu um rumoroso farfalhar de sedas.

— Entre para cá, doutor! gritou Ambrosina aparecendo.

E Gaspar, depois de atravessar um pequeno gabinete, penetrou, no salão, onde conversavam animadamente.

— Dr. Gaspar Leite, disse Ambrosina, apresentando­o aos que lá estavam. Meu médico... acrescentou ela com um gesto muito gracioso.

Gaspar sorriu.

O salão era vasto e bem guarnecido, mas pouco confortável; faltava­lhe essa alma misteriosa e simpática, que os moradores vão insensivelmente comunicando aos móveis que o cercam terminando por emprestar a cada um deles alguma cousa do seu próprio caráter.

A gente sentia­se ali mal à vontade, como se estivesse em uma casa de vender trastes. É que era tudo novo em folha; os móveis rescendiam ainda ao verniz do marceneiro, as cortinas das portas e os panos das cadeiras tinham a goma com que saíram da fábrica, as cachemiras da mesa e do piano guardavam as dobras da caixa em que foram transportadas da Europa para o Brasil.

Todos aqueles trastes não nos diziam nada, não nos comunicavam cousa alguma; estavam ali, coitados! como uns pobres estrangeiros, que não sabiam falar a nossa língua. Não tinha a gente vontade de assentar­se naquelas cadeiras, encostar­se naquelas dunquerques, nem pisar naquele tapete, com medo de que viesse o mercador recomendar­nos que lhe não tirássemos o lustre da mobília.

Era esta a sensação que Gaspar experimentava ao entrar na sala de Ambrosina, e mentalmente ia comparando a insociabilidade de tudo aquilo com a franca camaradagem dos seus velhos trastes de família.

Entretanto, a bela criatura o tomara pela mão e lhe apresentava elegantemente às suas visitas.

— Este é o Sr. Rocha Coelho, deputado geral pela província da Bahia. É a primeira vez que vem ao Rio; escusa dizer que é pessoa de alto merecimento.

O deputado levantou­se apertou a mão de Gaspar, com ar, tão enérgico e grave, que lhe abanava os enormes bigodes negros e lhe fazia tremer a rebarbativa papada.

Ambos folgavam muito em travar relações.

— Este agora é o Sr. Dr. Lopes Filho, advogado distinto!

Gaspar repetiu o jogo da primeira apresentação. Folgaram muito igualmente em se conhecerem.

O terceiro não precisava ser apresentado — era o Reguinho.

Sempre magrinho, fútil, a empulhar os amigos. Os cabelos principiavam­lhe agora empobrecer e grisalhar mas ele conservava o mesmo ar passivo de menor que vive à custa da família.

(continua...)

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