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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Esta demonstração do bispo deu logo a S. Gonçalo de Amarante um grande número de ardentes devotos, e por súplicas do padre João de Araújo e Macedo e de outros, foi criada a respectiva irmandade com permissão dos irmãos de S. Pedro, que para esse fim lavraram o termo de 7 de outubro de 1741.

Diz um antigo anexim que se beijam as pedras por causa dos santos. Neste caso, porém, o anexim falhou, observou-se o contrário, e o tempo veio demonstrar que se venerava o santo por causa do bispo.

Desde que D. Frei Antônio de Guadalupe deixou o Brasil e foi substituído no bispado do Rio de Janeiro, caiu pouco a pouco, ou antes, logo e logo S. Gonçalo de Amarante em um triste esquecimento e abandono, e por modo tão sensível, que o seu culto acabou por ficar a cargo da irmandade dos clérigos.

Dir-se-ia que os antigos devotos de S. Gonçalo de Amarante, cansados da sua devoção, e desconfiando que outros santos eram mais milagrosos e de mais potente influência do que ele, se puseram a entoar em coro aquela cantiga com que as moças de Santarém atordoam o padre Froilão Dias, no drama Alfageme de Santarém.

S. Gonçalo de Amarante, Bem lhe reza minha tia. Casamenteiro é de velhas, Vá pra outra freguesia.

Mas eu penso que não o tiveram na conta, nem de casamenteiro de velhas. Porque, se o reputassem tal, duvido que houvesse santo que mais culto recebesse.

O infortúnio do S. Gonçalo de Amarante, da igreja de S. Pedro, oferece uma lição proveitosíssima, mostrando-nos a conveniência de não acreditar facilmente em certas devoções que se observam no mundo, e de procurar distinguir bem os devotos sinceros e leais dos devotos que beijam os santos por causa dos bispos.

Tomem, portanto, nota desta história de S. Gonçalo de Amarante, que é boa, e que se parece bastante com outras histórias que se estão sempre passando fora das igrejas, nos palácios, nas casas dos grandes, e às vezes, até mesmo nas cabanas dos pobres.

Agora, chamam a nossa atenção o presbitério e o coro da igreja que estamos visitando.

O presbitério é de mármore, tendo a frente ornada de lavores, e sempre em relação com o estilo barroco dominante.

O coro é proporcionado ao tamanho da igreja, e nele se faz notar o órgão que passa, creio que com razão, por ser o melhor que existe na cidade do Rio de Janeiro.

A irmandade possuía um órgão antigo, mas vendeu-o por quatrocentos mil-réis, substituindo-o pelo novo, que lhe custou seis contos de réis, livre dos direitos da alfândega.

O novo órgão consta de duas, ou antes, de três peças distintas, e como que separadas: os teclados, o órgão propriamente dito e o fole.

São três os teclados, dois para as mãos e um para os pés, sendo os primeiros de marfim e ébano e o último de carvalho; bem como é de carvalho envernizado a caixa.

O órgão propriamente dito tem a caixa de carvalho envernizado e ornada com pilastras da ordem coríntia, e de cada lado um anjo de madeira, obra do Sr. Despré, e consta de doze jogos de canudos.

Estas duas peças se comunicam por baixo do banco do organista, que assim toca com o rosto voltado para o altar.

O fole está colocado fora do coro, e um pequeno registro ligado a uma campainha adverte ao tocador do fole, quando há falta de vento.

Este órgão foi fabricado em Hamburgo por Schulz, sendo o plano e a colocação do instrumento devidos ao Sr. Napoleão Lebreton.

Desculpem-me o tempo que gastei com a descrição do órgão. Tenho a maior consideração por todas as entidades que se fazem admirar, quando se enchem de vento e, portanto, era uma injustiça que não tratasse com a mesma atenção o órgão de S. Pedro.

Passemos do corpo da igreja à sacristia por esta porta lateral que temos à mão direita.

A sacristia, que também abre uma porta para o exterior, comunicando-se com a Rua dos Ourives, é uma sala em cujas proporções se guardou a necessária harmonia com a igreja.

Na sacristia excitam a nossa curiosidade os retratos que a ornam e de que vou dar-vos conta imediatamente.

O primeiro retrato é do Bispo D. Frei Antônio de Guadalupe, o grande protetor da irmandade de S. Pedro, e infeliz instituidor da devoção de S. Gonçalo de Amarante.

O segundo retrato é do sargento-mor Alexandre Dias de Resende, o caridoso instituidor do patrimônio dos padres e irmãos pobres da irmandade de S. Pedro.

O terceiro é o de Manuel Vieira dos Santos, que acabou cego na terra, mas que do mundo feliz da eternidade vê perfeitamente o desenvolvimento da instituição do coro de S. Pedro, que à sua caridade é devida.

O quarto retrato é o do padre Francisco Barreto de Meneses, que doara o terreno em que se levantou a igreja de S. Pedro.

O quinto é o do padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo, um dos benfeitores da instituição e do patrimônio dos padres e irmãos pobres.

(continua...)

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