Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Como?... e para quê?... — Como, se essa mulher encantadora e bela, cercada sempre por uma multidão de galantes mancebos, ricos, espirituosos, alegres, lisonjeadores, que sabem dizer tão bonitas coisas e olhar com olhos tão ardentes, não poderá ver nunca o homem pobre, que só tem para lhe oferecer um coração cheio de lágrimas!... que não se animará nunca a balbuciar uma frase de amor!... que não ousará jamais levantar seus olhos uma só linha acima dos pés da mulher amada?!... — E para quê?... para ser correspondido?... para ganhar gratidão, e depois dar para comer a esse anjo, que se adora, um pedaço de pão amassado com o pranto de seus olhos?... para repartir com essa mulher a miséria que padece... a vida de tormentos que arrasta?!... para padecer o dobro, vendo-a padecer também?!...
Oh! não!... não, meu Deus!... o homem pobre não deve amar, não!
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E, então, por que fui eu escrever aquele bilhete, e deixá-lo debaixo da vidraça de sua janela?... por que me atrevi a jurar-lhe um amor de poeta e de fogo?...
Oh! foi porque a voz dessa mulher prendeu para sempre meu destino a seus lábios!...
E, portanto, não me é possível duvidar mais da natureza de meus sentimentos... eu amo!... Qual será o resultado desta paixão que me alucina?... que futuro me estará esperando?... por que novas provações terá de passar a minha alma?...
Meu Deus!... meu Deus!... vós não sentis que a sensibilidade é o maior dos tormentos do homem pobre?... não é bem verdade que os pobres deveriam poder viver sem coração?...
III
Enfim, graças ao céu!... eu pude, sem ser visto, vê-la de perto... observá-la... admirá-la!
Há no mundo só uma coisa que arrebata ainda mais do que a voz dessa moça; é o semblante dela mesma.
Já me não arrependo de tê-la ouvido e visto; já não sinto haver amado; sofrerei todos os tormentos possíveis com valor e serenidade... chegarei mesmo a bendizê-los; pois estou convencido de que por gratidão eu devia amar tão encantadora criatura.
Devia! porque ela fez desabrochar em minha alma, sempre tão árida e tão estéril, uma flor: a flor da crença na possibilidade de ventura cá na terra, flor bela como o rosto, suave como o canto, balsâmica como o hálito de Honorina!...
Devia! porque ela fez bruxulear no horizonte de minha vida sempre tão escuro, tão em trevas, tão tempestuoso, uma aurora... a jucunda aurora do amor, aurora brilhante como o olhar, bonançosa como o sorrir, fascinadora como o arfar dos seios de Honorina!...
E eu, pois, a amo! amo-a, qual ama o náufrago a derradeira tábua do navio despedaçado, a que se prende para escapar à morte!... amo-a, como o homem réprobo amaria o anjo de salvação, a cujas asas se pudesse ter agarrado!
Amo-a como a pomba a seus pombinhos inda implumes; como o heliotrópio ao astro do dia; como a mais extremosa mãe ao mais extremoso filho!
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Mas é bem possível que essa mulher angélica não se lembre nunca deste homem que a adora tanto!
E isso que importa?... é a sorte do mundo. Todo o homem encontra sempre em sua vida um coração de mulher, que o não atende, e outro coração de mulher que por ele sofre: é a sorte do mundo.
Daqui a pouco verei chegar a jovem S... pobre menina!... creio que também é infeliz... suponho que me ama... e que se ressente de minha indiferença...
Se Honorina um dia me dissesse: “Senhor!... como pode maltratar assim uma mulher que lhe ama?...”
Eu acredito que me atreveria a responder-lhe: “É uma compensação, senhora! É preciso que uma mulher experimente os tormentos que outra mulher me faz sofrer!” É a sorte do mundo.
IV
Esperança!... esperança!... esperança!...
Por que não posso eu ser amado por Honorina?... o que pede ela ao céu?... um amor de poeta e de fogo; pois bem: eu tenho mil vulcões no coração, desde que a amo; ame-me ela, e terei uma cabeça de poeta.
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E onde deve despontar o almo sol da esperança, senão no sereno horizonte da juventude?... onde com tanto viço, com tão copiosa exalação de perfumes se ostentará a rosa da esperança, como no jardim fecundo da idade dos amores?
A luz da vida — o facho que o homem se guia na longa viagem deste mundo — a fonte inesgotável donde o pensamento tira as tintas cor de fogo para pintar formosos arabescos no painel do futuro — a balança encantada em que o homem se equilibra entre os males que experimenta, e os bens que almeja — eis a esperança!...
Ninguém, ninguém vive sem esperança: por que, pois, não a terei eu também?... oh!... ainda que seja uma ilusão... eu a quero!...
A esperança é o alimento do espírito... a alma do coração...
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V
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.