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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Já lhes disse como escolhi o Estado dos Caranguejos para começar o meu exame. Parti para ele, a bordo de um vapor do Lóide, em fins do ano. O paquete estava com a partida marcada para 26 de dezembro; mas, como o governo queria número na Câmara e temia que muitos deputados fugissem nele para os Estados, adiou-a para o dia 30.

Embarquei às 10 horas da manhã, pois os anúncios diziam que o navio levantava ferros ao meio dia. Havia congressistas passageiros e, tendo as sessões da Câmara se prolongado até tarde, o vapor só deixou as amarras às nove horas da noite.

Foi, portanto, vendo a cidade iluminada, a se mirar nas águas negras da baia, que atravessei a barra em demanda ao Estado dos Caranguejos.

Navegávamos num mar calmo sob um céu negro em que as estrela faiscavam como diamantes nas trevas.

A linha da costa era de longe em longe marcada por fracas luzernas à altura das águas. As águas estavam negras e o mar tinha de noite menos atração e aparentava mais segurança. A luz manifestava toda a sua fascinação e esclarece os perigos e as suas perfídias.

De quando em quando, o jorro luminoso do farol da Rasa cobria um instante o navio. Não havia quase fosforescência e, na coberta. só ouvia o ritmo das máquinas e o escachoar das hélices.

Havia poucos passageiros na tolda e, entre eles, não se estabelecera conversa. Todos se tinham mergulhado no insondável mistério daquela noite de trevas sobre o oceano imenso. De repente, um grito quebrou aquele augusto silêncio:

— Meu binóculo! Ó comandante! Pare! Pare!

Todos nós acudimos para ver o que era e topamos com um senhor envolto em roupas de dormir que gesticulava possesso e gritava furiosamente:

— Ó comandante! Meu binóculo! Pare! Pare!

A todas as nossas perguntas de explicação, ele se limitava a responder:

— Onde está o comandante?

Vindo o capitão, entre o tom de pedido e o de ordem, ele disse:

— “Seu” comandante, é preciso voltarmos ao Rio. Esqueci-me do meu binóculo.

O comandante fez-lhe ver que isso era impossível e tal coisa iria causar graves prejuízos à companhia e aos passageiros. O homem enfureceu-se e gritou:

— Sabe com quem está falando?

O comandante disse que não sabia, mas que não havia necessidade de sabê-lo, pois se tratava de medida de suas atribuições, sendo ali a sua autoridade em tudo soberana.

— Pois bem — disse o homem — tenho imunidades; sou o senador Carrapatoso.

O comandante retorquiu no mesmo tom de voz:

— Vossa Excelência há de perdoar-me, Sr. Senador, mas não posso voltar.

Nisso apareceu um sujeito alto e espadaúdo, acaboclado, com um bambolear de corpo expressivo e foi dizendo:

— Volte essa joça. Vá! O senador está mandando.

O comandante ainda recalcitrou, tentando convencer o homem que havia muitos binóculos a bordo, mas o senador intimou:

— Quero o meu binóculo. Não quero outro. Ou o senhor volta e eu voto a autorização para o empréstimo da companhia, ou não volta e eu e a minha bancada faremos uma guerra tremenda ao projeto.

À vista disso, o comandante que sabia das dificuldades da empresa, tanto assim que não recebia os seus vencimentos havia três meses, virou de bordo e voltamos para o Rio de Janeiro.

Só levantamos de novo o ferro, na madrugada do dia seguinte e penosamente o navio levou-me a Tatui, capital do Estado dos Caranguejos.

Como os senhores sabem, esse Estado não é dos maiores do Brasil, nem mesmo dos médios, mas não é o menor deles.. Tem uma população de pouco mais de meio milhão de habitantes e uma lavoura de cana de açúcar que se arrasta através de dolorosas crises. A não ser a indústria do fabrico do açúcar, quase sempre em crise como a lavoura em que se baseia, não havia no Estado outra indústria de vulto.

A sua capital, a cidade de Tatui, tem uns trinta mil habitantes. Era uma desgraciosa cidade de casas baixas, quase sem calçamento, sem esgotos e com pouca iluminação elétrica.



(continua...)

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