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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Não imaginam! É uma escultura! uma verdadeira escultura! dizia um sujeito bem vestido num grupo em casa dos Castelões. Viajei por quase toda a Europa, parte da Ásia, conheço África, bati a América de um lado a outro, gastei com as mulheres de mais afamada beleza, tive mulatas e negras, louras irlandesas, espanholas morenas, frias inglesas, e francesas de toda a casta, mas confesso que nunca vi um corpo comparável ao desta! — É simplesmente assombroso!

E o homem, entusiasmado pelo efeito que as suas palavras produziam na roda, deixava­se arrastar por elas e exagerava ferozmente os dotes físicos de Ambrosina, gozando da suposta superioridade de ser ele ali o único que a conhecia de perto, e fazendo disso um glorioso direito de a defender como cousa sua, sem admitir que ninguém no mundo conhecesse mulher mais bela e sedutora.

— Não! deixe lá! opunha um velhote, com um sorriso cheio de autoridade e boas recordações; deixe lá! Há de ser muito difícil encontrar um corpo como o da Aimée! Aquilo é que era mulher!

E o velho mordia os beiços com o que lhe restava os dentes.

— Ora, Conselheiro! bradou o outro revoltado; vem­me cá V. Ex.ª falar na Aimée!... Veja esta!, veja e dir­me­á depois se se lembra mais da Aimée! Ora, ora! logo quem — a Aimée! Um manipanso!

— Manipanso?! repetiu o Conselheiro com um frouxo de indignação e de tosse. A Aimée um manipanso?! Ah, que se não fosse por temor ao escândalo, dava eu aqui mesmo a única resposta que merece semelhante sacrilégio! Chovam do estrangeiro as condessas que choverem; a Aimée há de ser sempre a Aimée! Ora sebo!

— Não, Conselheiro, tenha paciência! Pode V. Ex.ª, esbugalhar os olhos como quiser e fazer­se ainda mais roxo do que está, não admito mulher mais bela que a Condessa Vésper! A Condessa Vésper! Ver a Condessa Vésper, e morrer!

— Pois sim! Não aparecem duas Aimées no mesmo século, meu caro senhor!

— Além disso, que mulher fina! Que francês o seu! Que chic! Que verve! Que...

Mas foram interrompidos por um formidável zunzum. Ambrosina nesse instante passava pela rua de Gonçalves Dias.

Ia toda cor de pérola, luvas até às axilas; governava ela mesma, com muita graça o seu phaeton, e da traseira o macaco guinchava, a fazer momices extravagantes.

Correram todos para lá, com um frenesi escandaloso. Os negociantes, em mangas de camisa, abandonavam o balcão; senadores, deputados, proprietários, janotas, comendadores, repórteres e estudantes, tudo que há de bom e tudo que há de mau em trânsito pela rua do Ouvidor, se abalroou numa só onda. Era um delírio de curiosidade!

Vênus passava!

E um pequeno italiano, com um maço de folhas de baixo do braço, gritava no seu mau português "Jornal da tarde! traz o retrato da bela condessa russa! Quarenta réis!"

Os grupos compravam avidamente a folha.

Entretanto, por essas mesmas horas da tarde, em casa de Gaspar, dizia este ao enteado:

— Mas, com todos os diabos! és ou não és um homem?!

— Descansa que irei...

— Resolve­te então por uma vez! Está tudo pronto; a velha Benedita aboletada na ordem da

Conceição, os meus doentes recomendados a um colega de confiança, os nossos papéis despachados... só nos falta partir!

—Já te não merecem crédito as minhas palavras...

— Que dúvida!

— Pois olha que não fico zangado contigo por semelhante cousa.

E tomando um ar mais refletido:

— Sei qual é o motivo de tuas desconfianças, mas tranqüiliza­te, meu Gaspar, que não são inteiramente infundadas...

— Estás agora a fazer­te de forte ...

— Juro­te que entre mim e Ambrosina nada mais existe! Ameia­a, amei­a muito, não nego! Fiz loucuras, fiz delírios; adorei­a, enfim! Desde, porém, que ela se despojou da auréola que a minha imaginação lhe emprestara, deixou de ser ídolo, para ser lodo, para ser uma cocote vulgar e ridícula! O que eu nela supunha elevado e digno, nada mais era que o brilhante reflexo do altar em que a coloquei; uma vez fora de lá, o que queres tu que eu nela ame?

E Gabriel, voando pelo passado, acrescentou com febre:

— Sim! eu adorava aquela mulher! Seria, por ela, capaz de todos os sacrifícios; mas, quando a vi de volta à Corte, ostentar cinicamente a degradação e o vício quando a vi feliz e radiante no meio da esterqueira ... Ah! Gaspar! foi tal a repugnância, tal o nojo que senti, que ainda agora pergunto a mim mesmo como pude desprezar­me ao ponto de idolatrá­la?!

— Falas com muito calor, para que eu possa acreditar no que dizes...

— Dou­te a minha palavra de honra que assim é. Ambrosina para mim morreu! A criatura que agora passa todas as tardes pelo Catete, a governar um phaeton, já não é ela, é uma infeliz que se confunde com todas as outras dissolutas.

Mas, em todo o caso, partiremos amanhã...

— Sem dúvida!... Não que me arreceie de ficar no Rio, mas só porque assim é necessário para o meu futuro.

— Ah! se tudo isso fosse sincero!.

(continua...)

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