Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Alexandre Dias de Resende, como benfeitor da irmandade de S. Pedro, teve um ofício de corpo presente na igreja de S. Pedro, e os padres levaram sobre seus ombros o caixão do pardo Resende para a igreja da ordem terceira de S. Francisco da Penitência, de que ele era irmão!
E, ainda melhor, ao chegar o acompanhamento ao cruzeiro do convento de S. Antônio, apresentaram-se os terceiros para receberem o caixão, os padres declararam que o não entregavam senão a presbíteros como eles. Trocaram-se palavras duras e azedas, pondo termo à desagradável cena os frades de S. Antônio, que tomaram o caixão às costas.
Vejam, pois: iam brigando pelo Resende morto os mesmos que o tinham desprezado vivo!
A irmandade de São Pedro celebra anualmente, no mês de novembro, um ofício solene por alma de Alexandre Dias de Resende, presentes os seus ossos que se acham encerrados em uma urna.
A administração da irmandade, em 1852, mandou tirar e colocar na sacristia o retrato de Resende, como, em 1857, por proposta do tesoureiro do patrimônio dos padres e irmãos pobres, o Sr. Padre Manuel Agostinho José da Silva, e com aprovação da mesa, se deliberou que fossem também tirados e conservados os retratos dos outros benfeitores.
Aqui está, pois, toda a história de Resende, e nela a da origem da instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da irmandade de São Pedro.
A instituição começou, portanto, com o patrimônio a 9 de agosto de 1812.
Mas o caridoso instituidor desse patrimônio não só legou duas casas, como ainda um belo exemplo que achou alguns piedosos imitadores.
Assim, contam-se ainda os seguintes benfeitores da mesma
instituição:
Manuel Rodrigues dos Santos, que legou, em 1827, 2:000$000.
Antônio Rodrigues dos Santos (irmão do precedente), que deixou 4:000$ em 1829.
O Cônego Alberto da Cunha Barbosa, que, em 1845, legou 2:000$000.
E finalmente, o Padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo, que deixou 2:000$ em 1857.
O patrimônio dos padres pobres rende atualmente l6:238$072. É uma verdadeira instituição de caridade, que tem já prestado muitos serviços, conforme a natureza e fins da sua criação, e afiançam-me que se pode asseverar, sem receio de cair em erro, que os padres, para quem ela se destina, estão a coberto de privações nos casos de enfermidade.
O nome do Sargento-mor Alexandre Dias de Resende está, com razão, perpetuado nos arquivos da irmandade de S. Pedro e nos corações dos padres que o abençoam como um benfeitor.
Ora, pois! Cheguei finalmente ao desejado termo da história das três instituições da irmandade de S. Pedro.
Podemos agora desembaraçadamente lançar uma rápida vista d’olhos sobre a igreja, para dizer o que é ela e o que contém.
Vinde. Não tenhais medo de encher de pó as calças, nem de teias de aranhas as casacas. Há nove anos que a igreja de S. Pedro está limpa, e se pode entrar nela como nos seus belos tempos.
Pelo seu exterior, a igreja de S. Pedro distingue-se de todas as outras da cidade do Rio de Janeiro.
É uma igreja de forma circular como algumas de Roma, tendo o seu zimbório pequeno mas proporcionado e elegante. As portadas são de mármore e executadas com talento e gosto. Sobre a porta principal vêem-se as armas do príncipe dos apóstolos.
Domina em toda a igreja o estilo barroco da arquitetura do décimo oitavo século.
A igreja tem duas torres e abre o seu pórtico de mármore para um pátio defendido por grades de ferro. Esse pátio, outrora regular, apresenta hoje dimensões mesquinhas e irregulares, porque foi necessário sacrificar parte dele às justas e retas dimensões na Rua de S. Pedro.
No interior do templo predomina ainda e sempre o estilo barroco em todos os ornatos, aliás, habilmente executados. Toda a obra é de sólida construção de pedra e em abóbada. A igreja tem três altares.
No altar-mor, além da imagem do venerável príncipe dos apostólicos, que ocupa o seu devido lugar de honra, vêem-se, ao lado direito S. Paulo, ao lado esquerdo Santo André, e no mais alto degrau do trono, a imagem do Senhor dos Aflitos.
O altar do lado do Evangelho é consagrado a N. Sra da Boa Hora, a cujos pés está a imagem de S. Antônio, e em dois nichos laterais vêem-se as imagens de N. Sra da Conceição e de S. José.
O altar do lado da Epístola é dedicado a S. Gonçalo de
Amarante, que tem, em um degrau inferior do seu trono, a imagem de Santana, e aos lados S. João Nepomuceno e S. Pedro mártir.
Não são notáveis estas imagens pela sua execução artística. Ao menos, porém, vai sê-lo a nova de S. Pedro, que está sendo executada em mármore branco pelo hábil Sr. Despré, e cujo desenho me pareceu muito bonito.
Foi o bispo D. Frei Antônio de Guadalupe quem colocou no
altar do lado da Epístola a imagem de S. Gonçalo de Amarante, por louvável
devoção ao santo padroeiro da terra de seu berço.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.