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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Creio que a sociedade fluminense em peso protestaria contra semelhante apoucamento de nossa corte. Não é preciso ser filha de capitalista para ter semelhante tratamento. 

Talvez que o severo crítico sentisse o ressaibo de estrangeirismo no fato de trazer Guida em sua carteira uma nota de cinqüenta mil-réis para fazer com ela uma esmola disfarçada por uma travessura. 

Se ainda não desapareceu em todas as zonas da sociedade fluminense o tempo do “papai me dá um vintém”, não é menos certo que um melhor princípio de educação doméstica já condenou aquela tacanha e mesquinha inquisição familiar, que excedia-se em preparar a massa dos hipócritas, dos avaros e dos perdulários. 

É indispensável habituar um homem desde criança a lidar com esse tóxico perigoso, que se chama dinheiro; do contrário corre o inexperiente o risco de embriagar-se com ele; e essa embriaguez produz em de dous efeitos: o delirium tremens da prodigalidade, ou o idiotismo da avareza. 

Atualmente é comum das famílias ricas terem as filhas seus alfinetes, e nas pobres, quando as posses dos pais não chegam para essa verba, as moças laboriosas formam com os seus trabalhos de agulha os pequenos pecúlios, com que vão acudindo às exigências do toucador, sem a necessidade e o vexame de estarem a cada instante importunando os pais com o pedido de dinheiro para uma fita, um grampo, um crochete. (Deixem passar essa aclimação que é irmã do colchête, melhor do que crochê.) 

Que resta da inculcada aristocracia de Guida? 

Uns desperdícios feitos pela moça, que dava chocolate a comer ao seu cavalo e mandava-o lavar com vinho em vez de aguardante. 

Estas e outras extravagâncias não são ditas pelo autor, mas referidas por uma das personagens, em cujas palavras ele por certo não jura. Bastava este simples reparo para não se tomar a rigor aquelas coisas, dando ao contrário o desconto à exageração habitual dessa murmuração social que serve de tema às palestras. 

Mas prescinda-se da atenuação. Em um país onde tanto se esbanja com extravagâncias, onde homens sérios queimam centenas de contos em baboseiras, não se concebe que a filha de um banqueiro pudesse ter quejando capricho? Será necessário ir às sociedades da velha fidalguia para encontrar exemplos dessas dissipações? 

Ao contrário, o traço brasileiro está aí se revelando. Desses caprichos não se lembraria Guida se, apesar de rica, não se ocupasse com os arranjos de casa e não tivesse as chaves da despensa. Passemos a Ricardo. 

Em que é que os devaneios e o orgulho intelectual repugnam com a sociedade brasileira, aponto de não poderem germinar em seu seio? 

Não nos disse a crítica e era o essencial. 

Neste país dos trópicos, onde a própria natureza devaneia nas cambiantes da luz, no capricho das formas, nos contrastes do belo; nestas naturezas meridionais de imaginação vagabunda, cismar será acaso uma aberração? O orgulho da inteligência também não vinga nesta terra onde ele se ostenta todos os dias desde o legítimo brio do talento laborioso até a fofa vaidade da “suficiência” lerda e obesa, que refocila na reputação mal ganha? Nem um nem outro destes dois senões tinha-os Ricardo que entretanto, como homem ou como personagem, não estava isento de defeitos. 

Longe de ser o “homem dos devaneios”, Ricardo é o homem prático, preocupado dos interesses positivos da vida, compenetrado de sua grave responsabilidade como chefe de uma família não pequena e paupérrima que tem nele o único arrimo. 

Professa a advocacia, donde espera tirar recursos; luta com uma corajosa tenacidade contra as dificuldades do tirocínio. Nas horas de lazer não faz verso, desenha, como eu costumo fazer às vezes, à toa e por desfastio, sem nunca ter aprendido; e confesso que esses grosseiros empastes me divertem. 

Aí vai esse neologismo, feito com a nossa mobília cá de casa (do verbo empastar) para traduzir o pastiche, que os franceses trouxeram do italiano pasticcio. 

Quanto a orgulho de inteligência, é coisa de que o moço não tinha nem sombras. Em suas palavras não há uma alusão à sua capacidade; não trai aspirações literárias nem políticas; não sonha com a glória. Sua preocupação é, para o coração, o amor da família e a afeição de uma moça; para a razão, a posse de vinte contos, necessária para assegurar o bem-estar dos seus. 

São dois colegas que de passagem e em ocasiões diversas fazem alusão “a seu talento”; pois ele o tinha, se o autor não se enganou em dar o nome a alguma dessas fosforescências que usurpam aí pelo mundo esse título. 

Creio ter exaurido a primeira pecha de estrangeirismo; e se alonguei-me foi pelo sistema da crítica, incômodo e laborioso para o autor, que deseja defender o seu livro, pois, além da tarefa de arcar com a habilidade do crítico, é obrigado a adivinhar-lhe os motivos. 

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