Por José de Alencar (1875)
Águeda tirara o véu de luto. Sua cabeça meneava-se airosamente agitando os bastos e
longos cabelos negros, semelhante à palmeira, que embala a sua verde coma ao sôpro da brisa. O corpinho de cambraia, cerrando-lhe a fina cintura, abria-se como uma taça esvazada para mostrar o colo.
Tinha as mangas curtas, onde os lindos braços engastavam-se apenas em um molho de rendas; a saia, bordada de crivo, descia-lhe até as curvas deixando nua a extremidade de uma perna bem torneada, e o pé largara a chinela para pisar mais sutil.
Notando o olhar do mancebo que devorava os seus encantos, Águeda fez um movimento de espanto, como caindo em si, e lançou mão de uma mantilha de sêda, na qual embuçou-se com gesto vergonhoso. Depois foi sentar-se no estrado e disse erguendo timidamente os olhos para Arnaldo, em pé diante dela:
— Sente-se, aquí, perto de mim. O que vou contar-lhe é um segrêdo de que depende a minha sorte. Jura guardá-lo, Arnaldo?
— Se desconfia de mim, para que arrisca o seu segrêdo?
— Não; não desconfio, nem é preciso que jure. Sei que é generoso, Arnaldo; e não há de querer o mal de uma pobre mulher, que só tem uma culpa, a de não vencer o seu coração.
Águeda repetiu então a fábula que inventara para explicar sua vinda à Oiticica; mas desta vez inserindo-lhe particularidades do caso, acompanhadas de exclamações e lamentos, em que a arteira rapariga empregava toda a sua habilidade cômica, e jogava com os requebros dos olhos, a volubilidade do semblante e as inflexões lascivas do talhe.
As mulheres têm o talento especial dessa eloquência ouca, mas sonora, que certos homens neutros conseguem imitar. Os lábios ressoam como as cordas de um instrumento; ouve-se a música das palavras; mas o que fala é somente o sorriso e o gesto, que não fazem senão repetir o mesmo e constante desejo de atrair e fascinar.
Águeda insistia em minuciosidades puerís, repisava as mesmas coisas, contradizia-se muitas vezes; mas o que ela queria era um pretêsto para falar, e bordar com a palavra essa teia de olhados matadores e efusões irresistíveis que a aproximava de Arnaldo e estabelecia entre ambos comunicação íntima.
Porisso, memorando a morte do marido, estremecia de horror, e conchegava-se ao mancebo como para amparar-se com a sua coragem; querendo enternecê-lo, travava-lhe das mãos que apertava nas suas, transmitindo-lhes o seu fluído no toque macio e tépido; outras vezes fingindo um susto, parecia desmaiar, e como sem tino e conciência do que fazia, levava ao seio a destra do sertanejo ainda enlaçada na sua.
— Que susto, meu Deus! Veja como bate o meu coração! dizia como sufocada.
Arnaldo estava sob a influência maligna desta sedução, de que o advertia a sua perturbação, mas que êle não tinha a fôrça de repelir; porque nesse momento sua alma nobre e altiva era sopitada pelas erupções do sangue.
Aos vinte e um anos, a bêsta humana, quando revolta-se contra o espírito que a domina, é uma fera indomável, sobretudo em uma organização pujante como a de Arnaldo. A pura e casta adoração que até alí havia preservado o mancebo de pagar o tributo à matéria e o alheara dos prazeres sensuais, deixara incubar-se o desejo que fazia agora explosão.
O sertanejo já não escutava as palavras da moça, nem entendia o que ela falava. Mas ouvialhe a voz harmoniosa, e bebia-lhe nos olhos a beleza, que o embriagava como o suco da jurema, do qual provara uma vez na taba de Anhamum.
Quando a rapariga apertava-lhe as mãos, ou se conchegava ao seu peito, um sentimento de profunda repulsão o invadia; mas, se turbava-lhe a alma, não tinha êle fôrça para retrair o corpo. Ficava imóvel e passivo.
Terminou Águeda a sua narração, convencida de que tinha em seu poder o mancebo; mas também com o tato e experiência que possuia, conheceu que não era êle homem para ousar logo da primeira vez. Que importava? Ela supriria êsse acanhamento pela sua afoiteza; contanto que naquela mesma noite alcançasse as duas vitórias porfiadas, a de seu capricho e a de seu interêsse.
No desafôgo de sua história, Águeda abrira aos poucos a mantilha, que afinal resvalara pelas espáduas, deixando nu o colo. Foi assim que estreitou-se com o mancebo para dizer-lhe:
— Eu sou uma desventurada, Arnaldo!
— O matador de seu marido será castigado. O capitão-mór não prometeu? murmurou o sertanejo.
— Se fosse esa toda a minha desgraça! Eu já me teria conformado com a vontade de Deus. Mas, além de perder meu marido, ficar ainda sem aquilo que a mulher mais preza neste mundo, a honra?
— Quem é que a quer roubar? perguntou o sertanejo indignado.
— Um sujeito de Inhamuns, chamado Marcos Fragoso.
— Êle?
— Conhece-o?
O sertanejo acenou com a cabeça.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.