Por José de Alencar (1857)
O tempo estava soberbo; o céu azul, esmaltado de pequenas nuvens brancas que se achamalotavam como as dobras de uma lençaria.
Os Aimorés, grupados em torno de alguns troncos já meio reduzidos a cinza, faziam preparativos para dar um ataque decisivo.
O instinto selvagem supria a indústria do homem civilizado; a primeira das artes foi incontestavelmente a arte da guerra, — a arte da defesa e da vingança, os dois mais fortes estímulos do coração humano.
Nesse momento os Aimorés preparavam setas inflamáveis para incendiar a casa de D. Antônio de Mariz; não podendo vencer o inimigo pelas armas, contavam destruí-lo pelo fogo.
A maneira por que arranjavam esses terríveis projéteis, que lembravam os pelouros e bombardas dos povos civilizados, era muito simples: envolviam a ponta da flecha com flocos de algodão embebidos na resina da almécega.
Essas setas assim inflamadas, despedidas dos seus arcos voavam pelos ares e iam cravar-se nas vigas e portas das casas; o fogo que o vento incitava, lambia a madeira, estendia a sua língua vermelha, e lastrava pelo edifício.
Enquanto se ocupavam com esse trabalho, um prazer feroz animava todas essas fisionomias sinistras, nas quais a braveza, a ignorância e os instintos carniceiros tinham quase de todo apagado o cunho da raça humana.
Os cabelos arruivados caiam-lhe sobre a fronte e ocultavam inteiramente a parte mais nobre do rosto, criada por Deus para a sede da inteligência, e para o trono donde o pensamento deve reinar sobre a matéria.
Os lábios decompostos, arregaçados por uma contração dos músculos faciais, tinham perdido a expressão suave e doce que imprimem o sorriso e a palavra; de lábios de homem se haviam transformado em mandíbulas de fera afeitas ao grito e ao bramido.
Os dentes agudos como a presa do jaguar, já não tinham o esmalte que a natureza lhes dera; armas ao mesmo tempo que instrumento da alimentação, o sangue os tingira da cor amarelenta que têm os dentes dos animais carniceiros.
As grandes unhas negras e retorcidas que cresciam nos dedos, a pele áspera e calosa, faziam de suas mãos, antes garras temíveis, do que a parte destinada a servir ao homem e dar ao aspecto a nobreza do gesto.
Grandes peles de animais cobriam o corpo agigantado desses filhos das brenhas, que a não ser o porte ereto se julgaria alguma raça de quadrúmanos indígenas do novo mundo.
Alguns se ornavam de penas, e colares de ossos; outros completamente nus tinham o corpo untado de óleo por causa dos insetos.
Entre todos distinguia-se um velho que parecia ser o chefe da tribo. Sua alta estatura, direita apesar da idade avançada, dominava a cabeça dos seus companheiros sentados ou agrupados em torno do fogo.
Não trabalhava; presidia apenas aos trabalhos dos selvagens, e de vez em quando lançava um olhar de ameaça para a casa que se elevava ao longe sobre o rochedo inexpugnável.
Ao lado dele, uma bela índia, na flor da idade, queimava sobre uma pedra cova algumas folhas de tabaco, cuja fumaça se elevava em grossas espirais e cingia a cabeça do velho de uma espécie de brama ou névoa.
Ele aspirava esse aroma embriagador que fazia dilatar o seu vasto peito, e dava a sua fisionomia terrível um quer que seja de sensual, que se poderia chamar a voluptuosidade dos seus instintos de canibal. Envolta pelo fumo espesso que se enovelava em torno dela, aquela figura fantástica parecia algum ídolo selvagem, divindade criada pelo fanatismo desses povos ignorantes e bárbaros.
De repente a pequena índia que soprava o brasido queimando as folhas de pitima estremeceu, levantou a cabeça, e fitou os olhos no velho, como para interrogar a sua fisionomia. Vendo-o calmo e impassível, a menina debruçou-se sobre o ombro do selvagem, e tocando-lhe de leve na cabeça, disse-lhe uma palavra ao ouvido. Ele voltou-se tranqüilamente, um riso sardônico mostrou os seus dentes; sem responder obrigou a índia a sentar-se de novo, e a voltar à sua ocupação.
Pouco tempo havia passado depois deste pequeno incidente, quando a menina tornou a estremecer; tinha ouvido perto o mesmo rumor que já ouvira ao longe. Ao passo que ela espantada procurava confirmar-se, um dos selvagens sentados em roda do fogo a trabalhar fez o mesmo movimento que a índia, e levantou a cabeça.
Como se um fio elétrico se comunicasse entre esses homens e imprimisse a todos sucessivamente o mesmo movimento, um após outro interrompeu o seu trabalho de chofre, e inclinando o ouvido pôs-se à escuta.
A menina não escutava só; colocando-se longe do fumo e de encontro à brisa que soprava, de vez em quando aspirava o ar com a finura de olfato com que os cães farejam a caça.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.