Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Ah! meu Deus! bradou Cândido apertando a cabeça com as mãos, porque acabava de adivinhar o que se lhe ia pedir.
– A carta fatal será minha, prosseguiu Mariana, se o senhor quiser deixar de aparecer a Celina por um mês ao menos, e escrever-lhe um bilhete mentindo, senhor!... mentindo... matando-se...
– Diz bem... matando-me...
– Oh! por piedade! exclamou a viúva abraçando-se com as pernas do mancebo; por compaixão! pelo amor de sua mãe!... não me deixe assim morrer desonrada...
– Senhora... mas eu hei de dizer que não amo a esse anjo de beleza e candura... a essa pomba celeste?...
– Senhor... senhor... eu tenho arrastado meu rosto pela terra, que pisam os seus pés... eu peço misericórdia!
– Sacrificar... cooperar para que se sacrifique uma virgem cheia de encantos e virtudes a um monstro... oh! é um crime!
– E eu? e eu então!...
– É um castigo! a Providência pune de mil maneiras neste mundo. Se eu pudesse sofrer só, senhora, para dar-lhe todo sossego, toda ventura que deseja, eu sofreria sem hesitar; mais uma moça inocente! enganá-la, e enganá-la quando apenas foi hoje que comecei a acreditar na possibilidade de um futuro, que seria a vida do paraíso?!
– Oh! pois bem, disse com voz concentrada e terrível a viúva; nada de piedade... nada de misericórdia para mim... eu sei bem que não as mereço; porém meu pobre pai!
– O sr. Anacleto?...
– Amanhã... depois de amanhã... daqui a três ou quatro dias, ao muito, o meu terrível inimigo se apresentará diante do cansado e amoroso velho. Eu o estou vendo, senhor, magro... pálido... melancólico... com a cabeça branca, embranquecida pelos cuidados que comigo teve, e pelos desgostos que lhe eu tenho dado; ele estende temeroso a mão para receber uma carta, que o monstro lhe vai entregar... oh! ele a lê... é a desonra de sua filha... é a mão da maior desgraça que o empurra para a cova... oh! o pobre velho não pode mais com a vida... ve-me chorando, e perdoa-me!... mas chora, por sua vez! o resto da vida que ainda tinha ele o desfaz em lágrimas! chora e morre!...
– Ah! senhora! que imagem!
– No entanto, senhor, nós ficamos no mundo; prosseguiu com ironia desesperadora a viúva. Celina é sua... o amor os liga... a religião soldou os laços; mas quando ao anoitecer o sr. Cândido voltar para casa no meio dessas mulheres doentes... andrajosas... trazendo no rosto a cor amarelenta da miséria, ou melhor, senhor, a cor de todas as misérias; magras, abatidas, mendicantes; aparecerá um vulto mais tocante que todos aqueles vultos... ao menos para o sr. Cândido. Serei eu, senhor! estenderei a minha mão para receber um vintém... e depois... vagarosa... desvairada... louca, eu me irei retirando e balbuciando duas palavras que resumirão toda a minha história!... crime e miséria!...
– Basta, senhora!
– E de noite, senhor, no leito de amor, mesmo junto de Celina, a hedionda figura da mendiga há de aparecer na sua imaginação, e ainda mais... a mendiga há de estar apontando para um sepulcro... o sepulcro há de se ir abrindo... e de dentro dele irá saindo branca... branca a cabeça de um velho... e o rosto deste velho há de ir aparecendo horrivelmente contraído diante da miséria da mendiga!... serão dois espectros... um pai e uma filha! um pai morto de desgostos... uma filha perdida pelo crime e pelos remorsos! serão dois espectros, senhor, Anacleto e Mariana.
– Basta, senhora!... exclamou de novo Cândido, cuja imaginação ardente dava cores ainda mais vivas ao horrível quadro que lhe traçava a viúva.
– Piedade!... misericórdia!... dizia esta sem cessar, abraçando-se com as pernas do mancebo.
– Oh! meu Deus! meu Deus!...
Um pensamento novo e atrevido, uma dessas idéias rápidas, brilhantes, felizes, dignas somente de uma imaginação de mulher, brilhou nos olhos de Mariana.
Ela ergueu-se, enxugou as lágrimas, e com voz segura perguntou a Cândido:
– Que idade tem, senhor?
– Vinte e um anos.
– E eu tenho trinta e seis, disse ela.
– Que quer dizer?...
Mariana, com os olhos em fogo, e um sorrir nervoso, murmurou com voz trêmula e vagarosa:
– Mancebo, sabes tu se eu sou tua mãe?!
Cândido soltou um grito surdo, que lhe saiu do íntimo da alma.
– Senhora, pela vida de seu pai, exclamou ele depois de vencer a primeira e profundíssima impressão que as palavras de Mariana lhe produziram. Diga-me a verdade; de que idade cometeu essa falta de que se acusa?...
– Aos quinze anos, respondeu Mariana com tom grave.
– Quinze para trinta e seis... vinte e um!... é a minha idade!...
– Sem dúvida: teria vinte e um anos! balbuciou lugubremente e a tremer a viúva.
– Oh!... é certo!... a senhora deveria ter um filho?...
– Deveria! respondeu Mariana; e tremia convulsivamente: deveria!
E a idéia do maior dos seus crimes dava mil punhaladas no coração da infeliz mulher.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.