Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

No entanto, por deferência a seu autor, conserva o título e a epígrafe, com que se orna. Era pouco mais ou menos o seguinte:

LIVRO DE MINH’ALMA

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Je t’aime!

Et le dire ici, c’est le bonheur suprême!...

V. Hugo

I

Eu vi uma mulher verdadeiramente bela.

Seus cabelos são negros e luzidios como o azeviche; seus olhos grandes, pretos e ardentes dardejam vistas de fogo tão penetrantes como os raios do sol.

Sua fronte branca, elevada e lisa é o trono do mais nobre sossego; seu rosto pálido, melancólico e doce o assento da graça mais arrebatadora; seus lábios encarnados, virginais e puros a fonte das mais angélicas delícias.

E abaixo de seu colo garboso, como o da garça, há um mar de leite, que, quando ela suspira, se agita... se inquieta... e... então lutam aí de mistura pudor e desejos; inocência e amor; candideza e voluptuosidade!... e então quem a está olhando, sente... anela... arde.

Seus braços são alvos e torneados; e suas mãos delicadas e finas; seus dedos dir-se-iam brandas hastes de cristal, cada uma das quais fosse coroada por uma pétala de rubra rosa. Seu pisar é subtil como o da pomba... o volver de seu vulto engraçado como o fugir da sombra... o seu falar meigo e harmonioso como a melodia de um anjo.

Ela tem a gentileza da aurora; a frescura do favônio; a suavidade e pureza do arroio do deserto.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um olhar de amor de seus olhos, uma palavra de amor de seus lábios, e um suspiro de amor de seu seio deve ser o complemento de todas as felicidades que se podem dar cá na terra... Porque enfim... ela é uma mulher verdadeiramente bela.

II

E antes de ver essa mulher, já eu a amava muito; porque já a tinha ouvido.

Era uma noite serena e fresca: eu passeava melancólico e abatido à borda do mar, quando de repente uma voz — ah! uma voz como outra igual nunca dantes havia soado!... suave, melíflua e tocante, que, entrando por meus ouvidos, ia até à medula de meus ossos, até ao âmago de meu coração, que se entranhava por minha alma!... — entoou um hino à inocência.

Debalde o canto acabou... debalde; porque eu o estava ouvindo sempre, e dentro de mim mesmo... e ali fiquei estático, entre o céu e a terra, entre a consciência do meu nada, de minha pobreza, de minha desgraça; e essa voz fascinadora, que pôde fazer-me crer que é possível a felicidade cá embaixo, quando se vive toda uma vida com os olhos embebidos nos olhos, com os ouvidos perto dos lábios desse anjo, que canta assim.

O sinal da meia-noite arrancou-me do meu encanto... lembrei-me, então, que sobre a minha cabeça, debaixo de meus pés, e em derredor de mim havia mundo e miséria; porque até essa hora eu tinha esquecido tudo... tudo... ocupado somente com duas idéias que eram a onipotência de Deus e a existência dessa mulher.

A lua estava clara e brilhante... vi, a curta distância, aberta a porta de um jardim, e no meio deste erguer-se uma frondosa mangueira debaixo da qual tinha saído a voz que me arrebatara. Entrei... um braço invisível e forte me arrastava para aí... eu queria, ao menos, beijar as pisadas dessa mulher.

Avancei alguns passos... a claridade da lua mostrou-me dois vultos de moças recostadas em uma janela; senti dentro de mim um desejo invencível de ouvir o que diziam as duas moças, de julgar de sua beleza se possível fosse...

Não as vi tão bem, como anelava...

Mas o que eu ouvi não me esquecerá mais nunca!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Meu Deus!... meu Deus!... vós não sentis que a sensibilidade é o maior dos tormentos do homem pobre?... não é bem verdade que os pobres deveriam poder viver sem coração?...

Pois o que há de fazer o homem pobre, quando ama?...

Abafar o seu amor?

Eis aí, portanto, um enorme tormento: esse fogo intenso que se sufoca, lança chamas devoradoras que fazem caminho rasgando... queimando o coração; esse amor, que se concentra, e se faz por afogar, é um raio da alma, que brilha no meio de horríveis ruínas... de calabouços medonhos! por que, pois, a luz, se a luz vem fazer sentir tão grande miséria?!...

Pretender o objeto amado?...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...99100101102103...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →