Por Lima Barreto (1911)
— Não há dúvida, Doutor, organize o seu plano e exponha o que necessita, que aqui estou para fornecer-lhe os meios. O Doutor compreende que tenho o máximo empenho em levar avante esse empreendimento, não só porque é de um valor científico extraordinário, como também oferece aspectos práticos de alcance transcendente. Sou pela prática, pela atividade útil. Hoje, por exemplo, tenho que assinar 2069 decretos e levo ao Presidente 400 regulamentos, ente os quais um sobre a postura das galinhas que lhe vai agradar muito. Não se dedica à avicultura, Doutor?
— Não; mas os meus processos são gerais, destinam-se a toda espécie da criação de animais. Havemos de experimentá-los, se V. Exa. me fornecer os meios necessários.
— Não há dúvida. Faça o orçamento.
Não me demorei muito em organizá-lo com todo o capricho. Nele, além de muitas coisas, exigia dez auxiliares hábeis, práticos e sabidos na bioquímica, os quais deviam ser contratados na Europa; exigia uma fazenda à minha disposição; pedia um numeroso pessoal subalterno e uma grande verba para material. O orçamento ia a quase oitocentos contos anuais. Apresentei-o ao Ministro que não o examinou logo:
— Não lhe posso dar resposta já, meu caro Doutor. Estou muito
atrapalhado... Nesse país está tudo por prover e eu trabalho dia e noite. Nunca teve ministros e um que vem com disposições de trabalho, esgota-se em pouco tempo... Imagine, que não pude tomar hoje o meu banho de frio, tanto estou atrasado!... Um dia em que não o faço, volto a ser o brasileiro mole que os senhores conhecem...
Assim mesmo já assinei 382 decretos e organizei 49 regulamentos... Ah! Doutor! Esse Brasil precisa de frio, muito frio!
Despedi— me de homem tão ativo e voltou ao meu gabinete. Durante um mês o Ministro não me deu resposta e o meu trabalho, na Direção da Pecuária Nacional limitava-se tão somente assinar os registros de estábulos e vacarias da cidade.
Houve um dia em que o ministro me chamou e falou-me a respeito da minha Pecuária intensiva:
— Li o seu orçamento e a sua exposição. Muito bons, ambos! O orçamento está um pouco salgado. Por que o senhor quer um laboratório de química tão completo?
— V. Exa. compreende — disse-lhe eu — que os nossos processos se baseiam na bioquímica; daí essa necessidade.
— Não há dúvida, concordo; mas o Doutor podia bem dispensar a fazenda.
— E os meus bois onde viveriam? Não acha V. Exa. necessário pastagens?
— O seu método não se baseia na alimentação artificial, Doutor?
— Baseia-se na superalimentação química.
— Pois então? O seu gado podia até ser criado em uma sala.
— Isto podia dar-se se fosse um ou dois, mas muitos não é possível.
— Não há dúvidas, Doutor! O senhor sabe que o governo está em economias e não pode atendê-lo. Em todo o caso o Estado tem uma casa disponível com um razoável quintal, à rua Conde de Bonfim, e, em pequena escala, o senhor podia experimentar. Vá ver a casa.
Inútil é dizer que eu não tinha nenhum interesse em por em prática as minhas fantásticas idéias. Fui ver a casa e fiz um relatório completamente desfavorável. Nem outro podia ser. A casa era um pardieiro arruinado e o quintal tinha para pastagem algumas touceiras desse capim que se chama “pés de galinhas”. O Ministro aconselhou-me por essa ocasião:
— Doutor, não se aborreça. Ninguém mais do que eu conhece as vantagens do seu processo, a barateza que ia trazer para um gênero de primeira necessidade, mas o governo está em apuros. Aconselho que se ocupe do expediente ordinário e espere um pouco.
Levei quase um ano a assinar licenças e registros das vacarias da cidade e tanto isso me aborreceu que, quando vi a dolorosa preocupação política do Senador Sofônias, resolvi atirar-me ao exame da política do Brasil, colhendo dados nos Estados.
Não julguem, pois, que foi um estado d’alma de “pícaro” e vagabundo que me lançou nessa peregrinação. Não sou absolutamente um Guzman d’Alfarrache, um Lazarilho de Tormes, nem um Gil Blas; tenho ânsia de certeza e de verdade, e quis, provocado pelo espetáculo pungente que o alto Senador Macedo da Costa me deu, examinar bem o que era política, quais as suas vantagens, quais as suas belezas e qual a sua importância.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.