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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Sim, e peço-te que não insistas em querer saber a razão por quê.

- E até quando durará o tal capricho de teus nervos?

- Não sei; é natural que durem enquanto eu viver.

- Confesso que te estranho. Tu, que eras tão meiga, tão amorosa para comigo...

- É exato. Vê como a gente se transforma de um momento para outro.

- Mas é indispensável que haja uma causa para semelhante transformação.

- Não sei; apenas te afianço que não contribuí absolutamente para ela.

- Se tens alguma razão de queixa contra mim, melhor será que falas logo com franqueza. Ao menos dar-me-ás o direito da defesa.

- Razão de queixa? Mas, valha-me Deus! seria uma injustiça, uma tremenda injustiça à tua bondade, ao teu caráter e a todos os teus princípios de moral. Queixar-me? Que idéia!

Pois se jamais fui tão lealmente amada e tão dignamente respeitada por ti...

- Não te compreendo, nem te reconheço. Estás irônica.

- Não; estou simplesmente orgulhosa de ser tua esposa. Pressinto que caminhas para um futuro brilhante; as tuas relações não podem ser melhores: o conselheiro adora-te, o conselheiro! um homem de bem às direitas, um velho respeitável por todos os motivos!

- E é a verdade o que dizes...

- Oh! verdade pura. Estou convencida de que o teu comparecimento à sessão de ontem, há de ainda mais engrandecer-te aos olhos dele. Não há dúvida que vais em uma carreira por todos os motivos invejável!

- Branca, disse Teobaldo, com ar muito sério, se tens algum ressentimento contra mim, peço-te de novo que fales abertamente. Não sei em que possa eu ter incorrido no teu desagrado; a minha consciência está tranqüila, mas desejo apagar de teu espírito toda e qualquer sombra de suspeita, de que me julgues merecedor.

- Já disse que não tenho acusação nenhuma a fazer.

- Mas então por que te mostras tão diferente do que és; por que estás desse modo?- De que modo? Eu nunca me vi de tão bom humor!

- És cruel filha!

- Eu? Pois então o meu bom humor já é uma crueldade?... Ora! tem paciência; mas não sei que fizeste de tua lógica, chegas a ser incoerente! Até aqui tu me lançavas em rosto todos os dias as minhas tristezas, os meus ciúmes, as minhas repetidas queixas de amor; e agora exprobras-me, porque me sinto bem disposta e com vontade de rir. Hás de confessar que isto não é lógico!

- Pois é justamente a tua rápida transformação o que me impressiona e do que desejo saber o motivo.

- Oh! não tem que saber! É que caí em mim...

- Caíste em ti? Como assim?

- É que ontem eu via as coisas por um certo prisma e hoje as encaro por outro.

- Explica-te.

- Desfizeram-se as ilusões, dissolveram-se-me as fantasias; vejo o mundo e vejo as criaturas por um prisma talvez menos consolador, com a certeza, porém, mais justo, mais razoável e muito mais lúcido.

- Não compreendo onde queres chegar com isso...

- Não me compreendes? oh!

- Juro-te que não!

- Então ainda menos me compreendeste até hoje. Imagine o senhor meu esposo que eu,até agora, via a sociedade e os homens de um ponto de vista ideal, cheia de confiança e de boa-fé; mas era só meu, individual, próprio, escolhido a meu capricho, sem mescla do que nos ensina a experiência e a dura realidade dos fatos.

- Bem...

- Pois calcula que, de um momento para outro, senti rasgarem-se-me defronte dos olhos os véus da minha ignorância, e desde então vejo tudo às claras, vejo certo, posso julgar com justeza, dando a cada figura, a cada grupo, a cada ação e a cada fato o valor que lhe compete, a sua capacidade, a sua grandeza ou a sua pequenez, determinando os seus fins e calculando as suas intenções boas ou más.

- E a que deves tu essa milagrosa lucidez inesperada?

- Não sei, talvez a um sonho, que tive esta noite.

- Um sonho?

(continua...)

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