Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
No meu antecedente passeio tive de interromper, obrigado por força maior, a história que vos contava de Alexandre Dias de Resende. Mas, se não tendes memória infeliz, deveis lembrar-vos que deixamos esse bom homem elevado a capitão, e à frente da sua companhia do regimento dos pardos.
De uma só ligeira penada termino as minhas informações a respeito da carreira militar de Resende, dizendo-vos que ele chegou a sargento-mor, e com essa patente morreu em 1812.
Mas não penseis que somente na vida da militância foi que Resende teve de provar amarguras e decepções.
Ides ver que ele foi tão infeliz com os padres da irmandade de S. Pedro, como tinha sido com o Major Melo.
Resende era devoto de S. Pedro, e tinha pelos padres verdadeira veneração. Desejava sempre se aproximar deles, e tanto o desejou, que um dia sorriu-lhe docemente a idéia de entrar para a irmandade do príncipe dos apóstolos.
A princípio hesitou, depois foi pouco a pouco tomando ânimo, e por fim de contas não se pôde conter e manifestou a sua ardente ambição ao Padre Luís Gonçalves dos Santos, que achou muito razoável a pretensão, e comprometeu-se a propor o candidato à irmandade.
Convocou-se a mesa. Correu a notícia de que Resende ia ser proposto para irmão de S. Pedro, e no dia aprazado achou-se plena a mesa da irmandade no consistório da igreja.
Resende, cheio de esperanças e de alegria, esperava o resultado da sua pretensão, passeando na sacristia. Começou, porém, em breve, a incomodar-se com a demora prolongada do despacho.
Era que havia discussão renhida no consistório.
Irmãos padres e irmãos seculares estavam quase todos em movimento e excitação.
Não podiam tolerar a idéia de ver o pardo Resende irmão de São Pedro.
Entretanto, alguns seculares mais hábeis diziam, sorrindo:
– A irmandade é dos senhores padres; eles, pois, que decidam.
E lavavam as mãos, como Pilatos.
Enfim, o Padre Francisco dos Santos Pinto, que depois foi senador do império, e o Padre Francisco Antônio pronunciaram-se de tal modo, que a mesa repulsou a pretensão de Alexandre Dias de Resende.
O Padre Luís Gonçalves dos Santos desceu à sacristia e comunicou a decisão da mesa ao triste Resende. Este desatou a chorar e retirou-se, dizendo:
– Paciência! Os senhores padres não me querem. Paciência!
Esta humildade não foi um fingimento. O futuro mostrou que Resende nem ao menos modificou as suas disposições generosas a respeito dos padres.
Alguns anos depois, um vizinho da chácara que Resende possuía no caminho de S. Cristóvão principiou a inquietá-lo, e acabou por tornar-se tão incômodo, que Resende vendeu a chácara, e com o produto da venda fez construir duas casas de sobrado na Rua de S. Pedro, ficando uma delas no canto da Rua Direita.
Causava alguma surpresa o ver-se que Resende, que já a esse tempo se achava bastante velho, se metesse em obras tão dispendiosas e que indicavam projetos de futuro.
O Padre Luís Gonçalves fez-lhe sentir isso um dia, mas Resende respondeu, sorrindo:
– É um segredo que só deve ser conhecido depois da minha morte.
E passados alguns momentos, como tratando de outro assunto, acrescentou tristemente:
– Tenho muita pena dos senhores padres, que, sendo pobres e estando doentes, não podem celebrar.
O dia da revelação do segredo chegou finalmente.
A 9 de agosto de 1812 faleceu o sargento-mor do regimento dos homens pardos, Alexandre Dias de Resende, e aberto o seu testamento, encontrou-se a seguinte disposição:
“Declaro que entre os bens que possuo, são duas moradas de casas que fazem dois sobrados no canto da Rua de S. Pedro, uma com frente para a Rua Direita, e outra com frente para a dita Rua de S. Pedro, as quais deixo à irmandade de S. Pedro, para esta tomar logo conta delas, e fazer assistência aos Revmos sacerdotes que se acharem enfermos sem poderem celebrar, fazendo-se-lhes uma mesada ao arbítrio da mesma irmandade obrigada a pagar a décima. E no caso de que a dita irmandade as queira vender, então passarão para a Misericórdia, opondo-se esta a tal determinação, e tomando logo conta delas, para do seu rendimento se sustentarem os pobres clérigos.”
E Alexandre Dias de Resende morreu sem fazer parte da irmandade de S. Pedro. E enriquecendo-a com este legado, não lhe impôs ônus algum nem em benefício da sua alma.
É completamente inútil dizer que a irmandade de S. Pedro não discutiu um só instante se o legatário das duas casas tinha sido branco, pardo, preto, amarelo ou azul, e aceitou logo o caridoso legado.
A mesa da irmandade de S. Pedro, em 1812, não pode ser de modo algum responsável pelo que anos antes fizera outra mesa, repelindo Alexandre Dias de Resende. Mas, em todo caso, é curioso o que então se observou.
Coisas deste mundo! – sempre é bom dizê-las.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.