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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 A estes motivos de mágoa e desgostos acrescia a lúgubre impressão, que tinham deixado o incêndio do canavial e as atrocidades de Jão Fera. 

 Todos o acusavam, exceto Luís Galvão, que lhe devia a existência; mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal. 

 Nestas circunstâncias lembrara-se Luís Galvão de propor à mulher uma viagem à corte; e ela aceitara com fervor a idéia. Deixar as Palmas era um meio de escapar à tirania das pungentes recordações, e de afastar Linda de Miguel. 

 Ouvindo na véspera à noite o anúncio da viagem, a moça, cujo coração pressentia a oposição da mãe à sua escolha, compreendeu toda a extensão de seu infortúnio. 

 Ansiosa, pois, esperava Miguel, que havia uma semana, depois de São João, furtivamente vinha todas as manhãs até à cerca da horta para vê-la por entre as árvores. 

 Nessa manhã, avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trêmula aproximou-se da cerca, além da qual se ocultava o moço. Ali, defronte, um do outro, os dois amantes não se animavam a quebrar o silêncio, nem mesmo a se olhar. 

 - Linda!... murmurou o moço afinal. 

 - O senhor não sabe? interrompeu a voz trêmula da menina. Vamos para o Rio de Janeiro. 

 - A senhora?... exclamou o rapaz sucumbido. 

 Linda soltou uma exclamação de susto. D. Ermelinda, vendo a filha passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes. 

 Não se irritou a senhora, que viu a aflição pintada no rosto da filha. 

 Ao contrário, abraçando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual procurava esconder-se à sua vista. Aproximou-se o moço, pálido e confuso, para ouvir estas palavras pronunciadas com um tom de meiga severidade: 

 - Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!... 

 O moço abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos. 

 

 

XXVIII 

O congo 

 

A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se enleva à margem do rio. 

 No centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta, como relíquia histórica, a vasta casa que foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre. 

 Fronteira à matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa da câmara, construída ao uso antigo, com seu campanário no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada dos outros edifícios. 

 Era domingo; e havia na vila reboliço de festa. 

 Pelas ruas, de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função. Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e atopetado de moças, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente. 

 Pouco mais de nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar à ribeira junto à ponte, e dela saltavam nhá Tudinha, Berta e Miguel, que também vinham atraídos pela festa. 

 O rancho subiu ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido, investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas. Berta a furto observava-o com uma expressão de terno ressentimento. 

 No trato dos dois moços entre si havia agora um certo constrangimento. Miguel acusado severamente pela própria consciência de ter mentido a seu primeiro amor e talvez que ligado ainda por esse elo que de todo não se rompera, fugia de conversar com Berta. 

 Na melancolia da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir um ressumbro de meiga exprobração, que infiltrava-se dentro d’alma e somente exalava nalgum momento de cisma ou descuido. 

 Por isso, Berta evitava também a companhia do moço, receosa de trair a mágoa de seu coração. Bem desejava ela consolar Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor a esperança de sua vida; mas temia que lhe escapasse nessa efusão o segredo de sua melancolia. 

 Nhá Tudinha, sempre contente e prazenteira, não desmentia a sua habitual agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se a cada instante para chamar a atenção dos dois moços a propósito de suas observações. 

 Atravessando o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caíram sobre a fisionomia de Jão Fera. Sobressaltou-se a menina, e seu primeiro movimento foi acenar ligeiramente com a mão, chamando o capanga. 

(continua...)

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