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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Ergueu Ricardo surpreso os olhos, e viu o semblante da moça banhado em lágrimas.

- Guida! exclamou ele. 

E cingiu-lhe a cintura com o braço para ampará-la, porque a via desfalecer. 

- Eu queria morrer aqui! balbuciou ela descaindo-lhe a fronte ao ombro de Ricardo, e reclinando o talhe ao peito onde conchegou-se hirta, sem movimento. 

Mudo e estático, Ricardo não sabia o que fizesse; não tinha forças para separa de si o corpo desfalecido, nem ousava observar-lhe o semblante, temendo nele ver a máscara da morte. 

Foi rápido o lance, e durou enquanto Mrs. Trowshy, que duas vezes investira com o arvoredo, mas fora repelida por causa da sua rotundidade, fazia volta para aproximar-se. 

- Guida! repetiu Ricardo aflito. 

A moça ergueu a fronte e engolfando-se no olhar que banhou o rosto do mancebo, sorriu: 

- Cuidei que morria... e era feliz!  

Ricardo pousou um beijo casto na fronte da moça.

- Há de viver! 

- Para quem?... 

- Para mim! 

- Por ele e para ele, meu Deus! disse ela ajoelhando com as mãos erguidas ao céu. 

- What!... gritou a mestra vendo Guida naquela posição. 

Ergueu-se Guida com um sorriso: 

- Estava agradecendo a Deus a bênção que me enviou. 

E abraçando-a com efusão, cobriu-a de beijos. 

- Child! Dear child!... exclamava a inglesa esmagando as lágrimas nos olhos. 

 

                                                     ***  

À última hora. 

O casamento de Guida com Ricardo efetua-se qualquer destes dias. 

O Bastos consolou-se com a sociedade que lhe deu o Soares em sua casa bancária. 

O Benício anda em uma dobadoura: da modista para o Carceler, da florista para a cocheira. Ninguém lhe encomendou cousa alguma; mas ele se julgaria desonrado se não tomasse parte ativa no grande acontecimento. 

 

FIM DO FIM 

 

 

OS SONHOS D’OURO 

 

Suscitou este livro, recentemente publicado, duas censuras ao distinto folhetista do Diário do Rio. 

Nada aproveita mais à propagação das boas letras do que seja a crítica leal e inspirada pelo sentimento artístico. A mim deleitam os certames literários. 

Argúi o ilustrado crítico de personagens estrangeiros as duas figuras principais do romance. 

“Guida, a jovem caprichosa e aristocrática, Ricardo, o homem dos devaneios e do orgulho intelectual, são tipos naturais da nossa sociedade íntima, tão franca e democrática?” Eis sob a forma da interrogação a primeira censura. 

Antes de tudo, não disse o autor que ia esboçar os seus personagens pelo prisma da vida íntima. Bem ao contrário, os apresenta ele a maior parte das vezes fora da intimidade da família, em passeio ou na convivência de pessoas estranhas. 

Feita esta observação, entro com a crítica. 

Por que razão não apresentará nossa sociedade, a mundana ou a íntima, o tipo de uma menina caprichosa e aristocrática? 

Não há capricho no Brasil? 

Aqui as rosas são, como dizia Mílton das do Éden, sem espinhos (without thorn)? 

Também será deserdada de toda superioridade esta raça brasileira, a ponto de não sentirem os espíritos elevados quaisquer assomos da aristocracia natural que não vem da linhagem, mas de alguma preeminência social, chame-se esta dinheiro, talento ou posição? 

Desconhece a vida fluminense quem negar a existência do que se chama entre nós a “alta sociedade”, embora sem o esplendor do grand monde em Paris e da high life em Londres. 

Se o ilustrado crítico chegasse à janela da sua tipografia em um dia de festa, veria passar-lhe diante dos olhos não uma, senão muitas moças mais caprichosas e aristocráticas do que a Guida. Mas onde está a aristocracia de Guida? 

Não nos diz o ilustrado crítico, e pois força-nos a conjeturar, o que será longo e fastidioso. Podia forrar-nos a esse trabalho apontando os fatos. 

Estará a aristocracia de Guida no passear na Tijuca em cavalo do Cabo? Em trazer roupão de caxemira e luvas de peau de Suède? Em Ter uma governanta e criado estrangeiro para acompanhá-la? 

(continua...)

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