Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Sabe perdoar?
– Sou cristão.
– Oh! perdoar deve às vezes custar muito.
– Deve ser bem doce.
– Em uma palavra, senhor, tem piedade de uma mulher infeliz?
– Senhora... senhora... sou filho, filho amante, e não conheço minha mãe.
– Basta.
A desconhecida tomou o braço do mancebo, aproximou-se da mesa onde estava a luz, e arrancando de sobre si a mantilha, caiu de joelhos.
Cândido soltou um grito de espanto: acabava de reconhecer a filha de Anacleto.
– Senhora! erga-se...
– Não! não! pelo amor de Deus deixe-me ficar de joelhos.
– É impossível... eu não devo...
– Mas eu quero... e não direi nada... e ver-me-á sair como uma miserável condenada, se quiser obrigar-me a levantar-me.
– Senhora...
– Não... não!... em nome de sua mãe, por todos os seus amores juntos, outra vez pelo amor de Deus deixe-me falar de joelhos.
O mancebo cruzou os braços, e ficou ali em pé, com a cabeça caída para baixo, olhando para aquela mulher que de joelhos, com os braços apertados em cruz contra o peito, e com os olhos cravados no chão, começou a falar:
– Senhor, senhor, o que eu lhe venho dizer e pedir não se diz, não se pede senão a um homem de honra, de piedade e de religião.
– Fale, senhora.
– Eu devo parecer-lhe uma mulher má e intrigante; e todavia eu sou apenas muito desgraçada; ouça-me como um padre ouve no confessionário.
– Fale sem receio, minha senhora.
– Senhor... ia dizendo Mariana.
– Espere, disse Cândido interrompendo-a.
– A viúva levantou a cabeça, e por entre suas lágrimas viu o mancebo dirigir-se à escada e examinar se alguém os escutava. Abaixou de novo a cabeça quando Cândido voltava para ouvi-la.
– Estamos sós; pode falar.
Mariana principiou então a dizer com voz trêmula:
– Na primavera de minha vida, senhor, eu fui tida por formosa, e conhecia-me por sensível. Amei... a história do meu amor começa como todas as do mesmo gênero; mas acaba como as mais desgraçadas. Seduziram-me, senhor... e abandonaram-me! oh! mas o meu infortúnio se tornou mais doloroso hoje porque sei que uma de minhas cartas, exatamente uma em que eu lançava em rosto ao meu sedutor o estado em que me deixava, caiu nas mãos de um homem sem generosidade e sem nobreza, que com ela joga contra mim.
– Oh! esse miserável..
– O senhor o conhece; é um mancebo que freqüenta nossa casa; é...
– Salustiano...
– Esse mesmo. Oh senhor! que procedimento abominável o desse presumido jovem!... eu esqueço tudo quanto se tem passado entre nós dois, para dizer somente a minha desgraça.
– Relação comigo? exclamou Cândido.
– Salustiano, desde muito tempo que ama minha sobrinha, e que debalde trabalha por se fazer amado. Ultimamente, com seus olhos de amante zeloso, descobriu que Celina já amava... oh! adivinhou a verdade: o senhor sabe a quem minha sobrinha amava.
– Ah! senhora.
– Não o increpo. Ela e o senhor são dignos um do outro; mas o amante infeliz jurou levantar uma barreira entre os dois... e essa barreira... a pesar meu... a despeito de todos os esforços, essa barreira sou eu.
– É possível!...
– Com a carta em que eu confesso meu crime, ele me governa como senhor. Com o poder que lhe dá essa carta, ele me disse uma noite: “eu quero que as portas desta casa se fechem ao sr. Cândido!” E eu fui pedir-lhe que me levasse ao jardim, e lá menti, senhor, caluniei minha sobrinha, caluniei meu próprio coração... ousei significar-lhe que a sua presença nos incomodava... despedi-o de nossa casa, e depois fui chorar atrás de uma porta como uma louca!... oh! senhor! perdão! perdão! em nome de sua mãe!...
– A senhora não é criminosa, disse Cândido tristemente; é infeliz...muito infeliz.
– Mas o plano do monstro falhou. Apesar da sua ausência Celina o aborrecia como dantes, quando hoje...
– Hoje... repetiu Cândido.
–É preciso que eu diga tudo. Eu caso-me, senhor, ou pelo menos deverei casar-me antes de oito dias. Pois hoje Salustiano se apresenta em minha casa, e dizme: “o meu! casamento com sua sobrinha seguirá de perto ao seu: eu o exijo! Se não...
... Oh! com estas palavras é que ele termina sempre.
– É incrível!... exclamou Cândido.
– Minhas observações, minhas súplicas, minhas lágrimas o não comoveram; e formalmente ordenou-me que eu viesse aqui pôr-me de joelhos a seus pés, e pedirlhe, senhor, como lhe peço, que salve a meu pai, e que me salve!
– Salvá-la? e como?...
– Oh! é preciso ter muita coragem para pedir o que eu peço! é um sacrifício...
mas estou de joelhos...
– Diga, senhora.
– O seu amor é que me mata! exclamou Mariana. Celina e o senhor me perdem...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.