Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Ora, se ele, que pode ser distraído por tantos interesses diversos, no tão vasto campo que se lhe abre para dar pasto a seu espírito, ainda assim é digno de lástima quando desposa uma mulher que não ama, ela, se abafa uma paixão em que se esperançava e liga sua vida inteira a um estranho, a quem jura obediência e amor eterno, consuma o maior de todos os sacrifícios, apaga assim a só luz, que lhe pode tornar brilhante o caminho da vida.
Por conseqüência, ninguém deve exigir de uma mulher o sacrifício de seu amor.
Porque a única esperança que ela pode ter na vida é amar e ser amada.
Porque o único direito que se lhe concede no mundo é (às vezes) o de aceitar ou não um noivo.
Porque é justo que ela escolha entre todas as cadeias, que lhe oferecem, aquelas que menos pesadas julgue, e mais bem douradas pareçam a seus olhos.
Porque, enfim, é necessário que a mulher ame a seu marido, para que possa ser esposa feliz e mãe extremosa.
E, sem o querer, sem o pensar, Hugo de Mendonça pede à sua filha o sacrifício de seu amor tão terno e tão doce; pois, ainda que ele tenho dito — responde livremente — não pode darse verdadeira liberdade em Honorina, que a todo o momento vê diante de seus olhos a imagem da pobreza nua... desgrenhada... dolorosa... estendendo emagrecidos braços para prender entre eles a seu pai.
E, portanto, terá Honorina de ser uma nova mártir, que vá aumentar o número já tão crescido dessas outras nobres mártires, que aí vão passando pela vida... pálidas... silenciosas... e que muita gente as julga felizes; porque elas, sempre generosas, sabem abafar seus suspiros... engolir seus gemidos... e esconder seus tormentos de um mundo egoísta e sem piedade, no qual a mulher é quase sempre uma vítima!...
Mas a meditação da moça foi interrompida por Lúcia, que entrou na sala.
— Sr.ª D. Honorina! disse ela.
— O que é, mãe Lúcia?... respondeu a jovem levantando a cabeça, que tinha pousado sobre uma mão.
— Um pajem, que não conheci, chamou-me da porta do jardim, e, dizendo-se escravo do Sr. Jorge, entregou-me esta carta, que da parte da Sr.ª D. Raquel lhe é dirigida.
— Oh!... a minha Raquel!... dá-ma... mas esse pajem, mãe Lúcia?...
— Retirou-se imediatamente.
— Embora... é uma carta da minha Raquel... que virá talvez animar-me um pouco.
Honorina ficou outra vez só e abriu a carta; havia, além de um curto bilhete, algumas páginas escritas em separado...
A moça leu primeiramente o bilhete com violenta comoção.
“Honorina. Eu sei tudo! a casa do Sr. Hugo de Mendonça vai desmoronar-se... e um homem se oferece para sustê-la: a esperança de teu pai está toda concentrada em ti... pende de teus lábios; e tu salvarás o autor de teus dias, e a família do nome que tens, aceitando a proposição de teu primo. Oh!... e que filha resistiria ao aspecto da desgraça de um pai?!... se eu fosse rico!... se eu fosse rico, iria de joelhos despejar meus tesouros a teus pés; mas tão pobre!... que importa que meu amor seja ardente e desmedido? de que vale, de que serve o amor de um pobre?... é, portanto, preciso esquecer... apagar para sempre a memória do passado; mas, Honorina, se esta minha paixão tão desgraçada... se esta, que eu morro, morte do coração pode merecer alguma piedade, aceita, recebe, recebe essas páginas do livro de minha alma!!!... a derradeira esperança que me resta, é que elas serão lidas por teus olhos, e finalmente, queimandoas junto de ti, vê-las-ás tornadas em cinza feia e negra... negra, como o futuro do pobre... como o meu futuro! aceita-as, pois, e adeus!... sê feliz... esquece-me...”
Terminando a leitura do bilhete, a moça misturou duas lágrimas brilhantes com um sorriso acerbo, cheio do fel da ironia, e murmurou tristemente:
— Como todos estes homens, a quem eu amo, desconhecem o meu coração!... como é que meu pai pôde dizer-me — falarás livremente —! como é que este homem animou-se a escreverme — de que vale, de que serve o amor de um pobre!... — então este... este me compreende ainda menos do que meu pai!...
E depois começou a ler as páginas do livro da alma do moço loiro.
XXX
Ao crepúsculo
À luz dos últimos raios do sol, lia Honorina as páginas escritas do livro de amor do moço loiro: uma profunda melancolia, às vezes acerba, estava em quase todas elas derramada.
Julgava-se o moço loiro verdadeiramente infeliz? ou sua tristeza era ainda fingida, como a que afetara na noite do sarau de Tomásia?... exprimia naqueles papéis uma dor terrível e real, ou neles jogava sua derradeira carta para ver se ganhava a partida?...
Longo e afatigador fora acompanhar a filha de Hugo de Mendonça na leitura que começara; parece talvez melhor transcrever aqui apenas o que for suficiente para dar uma idéia dessa peça, que, em suma, é tão vã e inconseqüente, como qualquer outra do mesmo gênero, como qualquer carta de amor.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.