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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Ah! interveio Artur Bouvier; o sermão de quinta-feira foi com efeito uma obra-prima no seu gênero! Vi desfazerem-se em pranto criaturas, a quem eu supunha fosse impossível arrancar uma lágrima!

— Pois se até a Guimard chorou!... disse Margarida, mostrando os seus dentes grandes como os de uma inglesa.

Bouvier replicou:

— A Guimard não admira, é uma mulher! Feia é verdade; magríssima, não há dúvida; sarapintado de marcas de bexiga, ninguém o nega; mas afinal é uma mulher! Comover, porém, o duque de Fronsac e o marquês de Sade até à lágrima... isso é que é verdadeiramente extraordinário!...

— Pois esses dois monstros choraram?... perguntou Gabriela, afetando grande surpresa. Oh! como hoje em dia a lágrima está ao alcance de todas as bolsas! ...

— Pois choraram... insistiu Bouvier. Tanto que a propósito Sofia Arnoud disse que o jovem pregador, fazendo brotar água de tais rochedos, conseguira maior milagre do que o seu legendário colega Moisés.

— Ah! suspirou Margarida. Não há dúvida que o talento sabe fazer todos os milagres!...

O Dr. Cobalt, que a um canto da sala conversava com Alzira, mas aplicava meio ouvido à palestra dos outros, exclamou de lá:

— Não! não! perdão! não foi o talento que fez o milagre, minhas gentis amigas; não foi o talento, nem tampouco a ilustração teológico do jovem seminarista, o que tão profundamente impressionou Paris...

Estas palavras do médico abriram na sala um silêncio de surpresa e indignação.

— Como? Pois o Dr. Cobalt tinha a coragem de negar talento ao pregador de quinta-feira santa? ... Oh!

O conde de Saint-Malô aprumou-se ainda mais sob os bofes bordados da sua camisa de rendas. Bouvier cerrara os lábios revoltado, e Gabriela assentara sobre o doutor o seu lorgnon de tartaruga.

— Negar talento ao pobre moço!... Com efeito!

Cobalt sorriu, levantou-se, e, indo colocar-se entre eles, respondeu com a sua fleuma habitual, afagando o ventre:

— Sim senhor, sim senhor; não foi o talento, nem foi a ilustração do seminarista, o que impressionou Paris inteiro. Há por aqui milhares de teólogos, muito mais fortes na matéria e mais oradores do que Ângelo, que não conseguem abalar um só dos seus ouvintes.

— Então o que é que foi?... interrogou a formosa Gabriela, sem abaixar o lorgnon.

— Uma cousa muito simples, minha querida senhora, uma cousa extremamente simples...

Todos se aproximaram dele, vencidos pela curiosidade.

— Que foi — Que foi?— Que foi então?...

— A sinceridade, respondeu o médico.

— A sinceridade?... exclamaram em coro.

— Sim, meus caros amigos. A verdadeira convicção nas suas crenças, o verdadeiro sentimento do que ele afirmou no púlpito. Foi só daí que lhe veio aquela poderosa e dominadora eloqüência. Ângelo falou mais com o coração do que com a cabeça, e só por isso Paris o ouviu tão comovido.

E depois de uma pausa:— Sim, porque é preciso confessarmos uma cousa, meus idolatrados amigos: os parisienses de hoje dispõem de muito espírito e de muita enciclopédia, mas, em questão de sentimento e de sinceridade... são de uma pobreza franciscana.

— Não é tanto assim!... arriscou Artur.

— Nós, os parisienses de hoje, prosseguiu o médico, somos muito corteses, muito engraçados, sim senhor, mas... falsos e hipócritas como ninguém...

— Ora essa, doutor!... resmungou o conde com um trejeito de ressentimento.

Cobalt acrescentou, torcendo para baixo a linha fria da sua boca barbeada:

— Paris admirou em Ângelo o que Paris já não possui e só por isso considera extraordinário. Foi o assombro do homem desfibrado e gasto, produzido pelo homem ainda forte e perfeito. Admirou a fresca e delicada flor do sentimento, que ele supunha há muito tempo extinta; admirou esse estranho Ângelo como se admirasse uma raridade preciosa, uma das nossas armaduras dos tempos gauleses por exemplo.

— Não sou dessa opinião! opôs Gabriela, voltando o rosto.

Alzira, que não deixara o canto do seu divã, ia cada vez mais se mostrando empenhada no que dizia o médico. Agora tinha o cotovelo fincado na almofada, a mão amparando o rosto, e os olhos espetados no teto.

(continua...)

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