Por Aluísio Azevedo (1897)
— Mais tarde o saberá, disse a bela desconhecida; por ora trate de fazer a sua toilette e tomar o chocolate que já está servido sobre aquela mesa. O senhor deve estar a cair de fraqueza.
E saiu.
Gaspar acompanhoua com a vista, e procurou mentalmente descobrir a relação que havia nesta casa com a outra em que adormecera. Nada descobriu e resolveu aceitar o conselho que lhe dera a desconhecida. Foi ao toucador e preparouse tomou em seguida o chocolate, e tratou de vestirse. Mas embalde procurava pela roupa — no quarto só havia um robedechambre de seda. Gaspar enfronhouse nele.
Tinha feito isto, quando sentiu passos. Era novamente a bela e misteriosa mulher.
— Ainda bem, resmungou Gaspar um tanto impacientado.
Ela voltouse muito familiarmente para ele, e disse com a voz firme:
— Antes de lhe explicar a razão pela qual espontaneamente o hospedei em minha casa, tenho a declararlhe que sou uma mulher honesta. Um pouco caprichosa talvez, mas com a consciência satisfeita pelo bom cumprimento do dever. Encontreio hoje, às quatro horas da manhã, desfalecido em uma das ruas menos transitadas desta cidade; a sua fisionomia impressionoume
extraordinariamente, por uma circunstância que mais tarde saberá. Calculei que o senhor tivesse sido vítima de algum roubo: fiz conduzilo à minha casa e aqui o tenho. Espero que me perdoará tal procedimento, se ele não for do seu agrado.
Gaspar, por única resposta, ferroulhe um olhar grosseiramente incisivo e curioso, como se lhe procuras se descobrir no rosto o que havia de verdade naquelas palavras.
Ela suportou o olhar sem pestanejar, e replicoulhe com uma firmeza que não admitia réplica:
— Não tolero que ninguém duvide do que afirmo!
E voltandose, acrescentou consigo: "Não me enganei! É ele com certeza!"
IV
VIOLANTE
— Perdão, minha senhora, disse Gaspar em continuação à conversa com a bela desconhecida; eu, nem só creio na sinceridade de sua palavras como estou possuído do mais profundo reconhecimento pelos obséquios que recebi; mas não posso disfarçar o embaraço da minha situação...
— Por quê? interrogou a senhora com um tom indiferente.
— Por tudo. Em primeiro lugar, a perda total de minha roupa quer dizer que se me extraviaram papéis de importância, entre os quais estava o meu passaporte, o conhecimento de minhas bagagens e o meu bilhete de passagem no Pacific Star...
— O Pacific Star partiu ao meiodia.
— Partiu?! Bravo! Então, minhas malas? Minhas...?
— Irão ter ao primeiro porto; cumpre ao senhor providenciar para que elas não se desencaminhem.
— Mas que situação a minha! exclamou Gaspar, olhando para o seu robedechambre com um ar infeliz. Ficar desta sorte em uma cidade completamente estranha para mim... sem um amigo, sem um parente, e vestido desta forma! Isto não tem jeito! É caso para darse com a cabeça pelas paredes! Aqui ninguém me conhece! E além de tudo, se a senhora me não puder arranjar um par de calças, eu nem do quarto poderei sair! Esta só a mim sucederia!
— Ora! o senhor está criando dificuldades imaginárias...
— Imaginárias?! gritou Gaspar, escancarando os olhos. Se lhe parece, minha senhora, que eu não devo estar seriamente atrapalhado! Imaginárias!...
Decerto. Olhe! ali está uma secretária: passe uma letra da importância de que precisa para viver algum tempo nesta cidade: depois...
— Que mulher singular! considerou Gaspar com os seus botões, e voltandose cheio de embaraço para a oriental: Perdão minha senhora! mas é que...
— Não pode hesitar! atalhou ela, sorrindo; o senhor não tem outro recurso...
— Mas é que eu nem ao menos sei a quem devo passar a letra...
— Tem razão, respondeu ela, encaminhandose para a secretária, onde escreveu um vale à casa comercial de Viúva Rios & Comp. E passandoo depois a Gaspar, acrescentou: — Tenha a bondade de assinar.
— Dois mil pesos! protestou Gaspar, lendo o papel. Porém eu não preciso por ora de tão grande soma...
— Em todo o caso, nada perderá, nem ganhará com aceitála. Esse papel representa uma quantia que o senhor terá de pagar com um pequeno juro. Creio que não será lesado...
— Estou convencido disso, mas a questão é que eu não conheço esta firma, e ela muito menos a mim. Que valor pode ter minha assinatura para semelhante casa?
— Enganase. O senhor merece todo o crédito para ela...
— Eu?!
— Sim, meu caro senhor.
— Creio que a senhora me confunde com outro...
— Pode ser, mas suponho que não!
— E como sabe se eu mereço confiança para a casa de Viúva Rios & Comp.?
— Porque sou eu a própria viúva Rios.
Estou pasmado.
— Disso sei eu... Assine
— Mas, minha senhora, deixe ao menos que lhe beije primeiro as mãos...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.