Por Machado de Assis (1886)
Tal foi, em resumo, a narração feita por Vicente a Davi.
Quando o velho hortelão acabou de falar ia a noite adiantada. Davi estava pensativo e concentrado. Não perdera uma só das revelações do velho, e às últimas palavras dele lançou-se-lhe aos braços.
— Muito bem! muito bem! exclamou o poeta. Obrou como um homem de honra e de prudência. Não era outro o seu procedimento. Este abraço é de irmão, e de admirador.
— Fiz o dever, não?
— Fez! fez! Devem todos os que o conhecem felicitá-lo por tal... Ainda bem, que não morro inteiramente desgostoso com a minha espécie; ainda há indivíduos que lhe fazem honra... Mas diga-me, nunca mais ouviu falar de Valentim?
— Nunca mais. Foi um ingrato.
— Foi um infame.
— É a mesma coisa.
— Sim, mas hoje, pelo tom que as coisas levam, já se vai dando à ingratidão a significação de independência... É com efeito independência, mas independência do justo e do honesto... E sua filha... pobre menina!
— Coitada. Trabalha contente e alegre. Nossas economias são muitas, porque reduzimos o mais que nos é possível as nossas despesas, de modo que, se eu hoje morrer, já Emília não fica inteiramente abandonada. Ai está a história da nossa vida. Adeus. É tarde. Até amanhã!
Vicente voltou ainda:
— É o primeiro a quem revelo todas estas coisas. Será também o primeiro a quem dê entrada em minha casa. Agora é tarde. Amanhã entrará no santuário do trabalho em que eu e minha filha somos sacerdotes...
— Até amanhã.
No dia seguinte, com efeito, Vicente apresentou-se em casa do poeta às 9 horas da manhã.
Davi coordenava uns papéis.
— Ponho em fuga a musa? disse Vicente à porta.
— Não; pode entrar. Isto não são versos. Já perdi o gosto de rever os versos que faço. Isto foi bom em outros tempos. Agora faço versos e atiro-os à gaveta, para lá dormirem com as minhas ilusões. Preparo uma ode, é verdade, mas não é agora... Vem buscar me?
— Venho.
— Pois vamos.
O poeta guardou os papéis e entrou com Vicente na casa deste.
Emília veio recebê-lo à sala.
Era uma bela criatura, apesar da magreza e da palidez, sendo que essa palidez e essa magreza davam ainda realce à beleza natural da moça em virtude do vestido negro que trazia, como luto de sua honra, e os cabelos desleixadamente atados sobre a nuca. Davi não pôde deixar de parar uns segundos diante de Emília sem dirigir-lhe uma só palavra. Se depois da narração feita pelo pai a que dava a vida da moça um fundo romanesco, Davi encontrasse uma mulher de aspecto vulgar, a impressão seria menor; não acontecendo assim, realçando a beleza de Emília o episódio tão curioso dos amores de Valentim, Davi, que, como todo o verdadeiro poeta, conservava, apesar dos anos, a fantasia e o coração, não pôde deixar de ficar impressionado.
Passado o primeiro momento de admiração, Davi encaminhou-se para a moça, e disse lhe algumas palavras próprias da ocasião.
Depois sentaram-se todos.
Não fora convencionado, mas o velho poeta compreendeu bem que era descabida toda a convenção no assunto do amor e do crime de Valentim.
A conversa versou portanto sobre coisa diferente e estranha daquela, mostrando-se Davi, o mais que pôde, ignorante do passado de Emília.
Davi despediu-se e voltou para casa.
Vicente e Emília insistiram para que ele lá voltasse, e Davi prometeu. E, com efeito, durante oito dias, Davi fazia regularmente uma visita diária ao amigo e vizinho.
Mas no fim de oito dias Davi não foi lá, nem deu sinais de si.
Durante dois dias conservou-se a casa fechada; mal aparecia, uma ou outra vez o criado Elói.
Vicente cuidou que o poeta estivesse doente, e lá foi. Elói apareceu e disse que o poeta tinha saído declarando que não voltaria antes de dois meses. Entretanto, deixara uma carta para ser entregue a Vicente.
Vicente recebeu a carta e foi lê-la em casa.
Dizia o poeta:
Meu caro amigo. Esta carta dar-lhe-á notícia, quando aí for, de que eu me ausento por dois meses.
Os motivos desta ausência são particulares. Talvez lhos diga depois. O que lhe peço é que, no caso de mudar de casa, faça-me chegar a notícia exata da sua nova residência. Adeus; até breve.
— Davi, poeta para si, amigo para Vicente, estranho para toda a humanidade.
Vicente leu esta carta a Emília, e lamentou com ela a repentina saída de Davi.
— Era o meu único amigo, e esse mesmo me falta.
— Mas, por dois meses...
— Eu sei lá... Dois meses... Também...
Vicente concluiu mentalmente a frase que dizia respeito a Valentim. Entretanto voltaram os dois às funções regulares da horta e da costura, à espera que chegasse o dia da volta do poeta.
Tudo continuou, portanto, como outrora.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.