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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

—- Sim, senhora, — insistio a escrava, como si fosse sua filha, e sinhásinha havia dc arrepender-se mil vezes de tel-a em tão ruim conta.

Ha ahi uma cousa que eu devo por força contar á sinhásinha, si não quizer botar minha alma no inferno.

O que é? conta, Lucinda..., será ainda alguma desgraça?.

— Não, sinhásinha, não é nenhuma desgraça; antes pelo contrario é cousa de lhe dar muito gosto e alegria.

— Devéras, Lucinda ! ...pois conta de pressa o que é isso.

Lucinda então acocorando - se aos pés da senhora, e abafando a voz para não accordar as creanças e Rozaura, que dormia alli bem perto, contou por miudo tudo quanto nessa tarde se tinha passado entre ella e Rozaura e a plena convicção em que estava á vista de tão vehementes indicios, de que a escrava que o senhor Moraes havia comprado não era outra sinão a filha de Adelaide, que ella Lucinda havia exposto em casa de Nha-Tuca e que, não se sabe com que interesse ou para que fim, fizerão passar por morta.

— Meu Deus! meu Deus ! exclamou a moça levantando as mãos ao céo. Será possivel ! ter sem o saber comprado como escrava minha propria filha l... Ah! si assim é, Lucinda, foi Deus, foi a divina providencia, que se servio das más intenções de meu marido e fez Rozaura correr para junto de ti naquelle estado afim de tudo se descobrir. Sem isso era bem possivel que elle ficasse por muito tempo, talvez por toda a vida, condemnada ao captiveiro e isto em casa de sua mãe, no meio de suas irmãs ! . . . ah ! só de pensar nisto arripião-se-me as carnes, e se me espedaça o coração

Mas agora sinhásinha só tem motivo para dar graças a Deus, que não permittio que assim acontecesse.

É verdade, Lucinda. Ah ! Rozaura ! Rozaura ! minha infeliz filhinha, continuou Adelaide estendendo os braços para o lado, em que dormia Rozaura ;

—perdoa-me; enganarão-me; eu não podia saber do teu destino ; mas hoje graças a Deus, vejo-te viva e perto de mim ! Mas ah ! isto parece-me impossivel, continuou ella a braços ainda com a incredulidade ; viste bem esse signa], Lucinda ? quem sabe si não ha algum engano do tua parte? quasi todo o mundo nasce com algum signalsinho no corpo.

— Isso é verdade; mas no mesmo lugar do mesmo tamanho e do mesmo feitio, sinhásinha? ! e demais a mais acontecer que no Inesmo dia em que Rozaura nasceo, morreo uma creança engeitada em casa de Nha Tuca?! Imagina bem, sinhásinha, e verá si ahi anda alguma tramada, ou não. Demais disso, repara bem na carinha de Rozaura, sinhásinha, e me diga com quem ella dá ares.

Elle se parece com sinhásinha um pouco porém ainda mais com certa pessoa, que mecê bem sabe.

— Sim ! sim ! cala-te Lucinda ; tudo isso é verdade,—disse Adelaide arquejando de emoção. — Além disso desde a primeira vêz que puz os olhos em Rozaura, comecei a sentir por ella uma affeição e ternura de mãe... oh ! Lucinda ! . . . não ha duvida mais para mim... Rozaura é minha filha.

A sorpresa e emoção de Adelaide erão extremas. Muito havia ella soffrido por amor daquelle primeiro fructo de um amor infeliz ; os longos annos que havião decorrido, a felicidade conjugal que havia encontrado, os carinhos do pae e do esposo, as caricias dos filhinhos não tinhão podido apagar a lembrança da innocente e infeliz menina, que do seio materno passára a braços estranhos e delles ao tumulo, nem estancar de todo o pranto, que tão dolorosa recordação ás vezes lhe arrancava ao coração. Nesses ultimos dias principalmente, e depois que Moraes, desmentindo o seu passado se entregava a desregramentos indisculpaveis, soffria mais cruelmente que nunca, e sentindo o remorso atassalhar-lhe a alma attribuia sua desgraça a castigo de Deus pelas fraquezas de sua mocidade.

— Rozaura, minha filha, perdoa-me ! exclamava ella com lagrimas nos olhos querendo precipitar-se no quarto vizinho a ir abraçar a menina, que dormia o somno dos anjos. Lucinda a custo poude conter e acalmar sua senhora.

—Não, minha sinhá; não accorde a menina ainda não ; deixe ella dormir. Por emquanto é bom que ella não saiba nada do que se passa. Antes de tudo é preciso procurar modos de tiral-a do captiveiro e justificar que ella nasceo livre. Mas je vae ficando tarde, e sinhó Moraes não pode tardar por ahi. Amanhã nós precisamos conversar para ver como se ha de arrumar isso, ouvio sinhá sinhá !

(continua...)

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