Por Martins Pena (1846)
PAULINO, assustado – Aí vem! (Dirige-se para a esquerda e entra no quarto e fecha a porta.)
CENA XVII
Entra o PEDESTRE, muito assustado.
PEDESTRE – Estou perdido! O melhor é fugir enquanto é tempo... É preciso levar alguma coisa. (Dirige-se para a mesa e, abrindo a gaveta, tira uma caixinha de fósforo e acende a vela.) Ao dobrar a segunda esquina, esbarramos mesmo com uma patrulha... O negrinho meteu logo pernas com o saco às costas, e eu também. Pega, pega! gritava a patrulha, e eu do mesmo modo gritava: Pega, pega! para não desconfiarem de mim. Mas no primeiro canto furtei-lhe a volta e vim mais que depressa para casa... Ah, mas não posso escapar! O negrinho será preso com o corpo às costas; falará... Aqui virão, e o outro corpo... Está dito, nasci para morrer enforcado por causa das mulheres, que tantos trabalhos me têm dado. Vou ajuntar o pouco dinheiro que tenho e ponho-me ao fresco... Quem quiser que a enterre... Oh, diabo, deixei a porta aberta! (Dirige-se para fechar a porta do fundo.)
CENA XVIII
O PEDESTRE, ao chegar à porta, recua por nela aparecer ROBERTO.
ROBERTO, da porta – Dá licença?
PEDESTRE, recuando – Ah! (À parte:) Estou perdido!
ROBERTO, entrando – Desculpe-me, se a estas horas...
PEDESTRE, à parte – Toda a hora é boa para se prender e enforcar um homem...
ROBERTO – Só muito poderoso motivo me obrigaria a incomodá-lo a horas tão indevidas...
PEDESTRE – Ai, que o homem não é o que eu pensei... Não me vem prender... Sem dúvida quer que eu lhe procure algum escravo fugido. (Alto:) Que ordena vossa senhoria?
ROBERTO – Senhor, há apenas doze horas que desembarquei chegando da Índia...
PEDESTRE – Ah, e ele já fugiu... Sem dúvida, ao desembarcar...
ROBERTO – Ele quem?
PEDESTRE – O seu escravo.
ROBERTO – Não é de um meu escravo que lhe venho falar.
PEDESTRE – Ah! (À parte:) Que diabo será? (Alto:) Então far-me-á o favor de dizer depressa o que quer. Bem vê que a estas horas... (Aqui Anacleta espreita pelo buraco da porta para [a] cena e nesse jogo continua.)
ROBERTO – Direi o que quero, e peço me desculpe. Há dezoito anos que um motivo, que é inútil agora dizer, obrigou-me a deixar o Rio de Janeiro, minha pátria. Parti para costa da África; mas antes, cruel e imperiosa necessidade obrigou-me a lançar na roda dos enjeitados minha querida filhinha. Com o coração partido de dor deixei esta terra, chorando a amante que o túmulo me roubara e a filha que deixava entregue a alheia caridade. Dezoito anos de exílio... Ah, mas à custa de privações e trabalhos conquistei uma fortuna de príncipe. (O Pedestre tira o boné que conservava na cabeça.) Uma fortuna colossal para oferecer à minha filha, que abandonada passara a sua mocidade... Esta manhã entrava eu pela barra; três navios preciosamente carregados seguiam-me... E estes três navios pertencem-me.
PEDESTRE – Três navios!
ROBERTO – Ao saltar em terra, apressado dirigi-me para a Santa Casa da Misericórdia, a fim de saber se minha filha ainda vivia. Como ia ansioso e trêmulo! Aí chegando, perguntei por essa inocente menina que havia dezoito anos dava-me forças para tanto sofrer e coragem para trabalhar... Dei os necessários sinais – uma cruz de ouro esmaltada, orlada de azul...
PEDESTRE, espantado – Uma cruz de ouro!
ANACLETA, da porta, à parte – Uma cruz de ouro!
ROBERTO – Foi-me respondido que essa menina, não tendo sido reclamada, o Recolhimento a dotara e casara. Perguntei com quem; disseram-me que com um homem que ao depois se fizera pedestre.
ANACLETA, da porta, à parte – Meu Deus!
PEDESTRE, assombrado, ao mesmo tempo – É ela! Oh! (Aqui Paulino principia a espiar pelo buraco da porta à esquerda; com cautela, porém, para não ser visto.)
ROBERTO – Com um pedestre! exclamei eu. Não importa. Se esse homem a tem feito feliz, se na pobreza a que seu estado o condena tem suavizado a sua sorte com os dotes de alma, se na vida doméstica a tem feito esquecer o abandono de sua mocidade, esse homem será meu genro. Amanhã terá um palácio magnífico, numerosos criados, ricas equipagens...
PEDESTRE, à parte – Oh, e eu a matei!
ROBERTO – ... ouro em que se possa fartar, ouro em abundância para satisfazer seus menores caprichos.
PEDESTRE, à parte – E eu a matei!
ROBERTO – Amanhã pisará o mais soberbo com a sua imensa riqueza e esmagará o mais rico com sua esplêndida ostentação.
PEDESTRE, à parte – Oh, e eu a matei!
ANACLETA, à porta e à parte – Meu Deus, é isto possível?
ROBERTO – Os homens que me ouviam deixaram primeiro passar esta torrente de exaltação e depois ensinaram-me a casa de meu genro. Meti-me em uma carruagem e dirigi-me para vossa casa. E agora, senhor, vós que sois o seu marido, ah, dizei-me: minha filha?
PEDESTRE, como alucinado – Vossa filha?
ROBERTO – Vive feliz? Não tem amaldiçoado seu pai?
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.