Por Machado de Assis (1906)
BARÃO
— Perpetuamente viúva?
D. HELENA
— Talvez.
BARÃO
— Nesse caso, quarto motivo: a sua viuvez perpétua.
D. HELENA
— Conclusão: todo o nosso acordo está desfeito.
BARÃO
— Não digo que esteja; só por mim não o posso romper. V. Exa. porém avaliará as razões que lhe dou, e decidirá se ele deve ser mantido.
D. HELENA
— Suponha que respondo afirmativamente.
BARÃO
— Paciência! Obedecerei!
D. HELENA
— De má vontade?
BARÃO
— Não; mas com grande desconsolação.
D. HELENA
— Pois, Sr. Barão, não desejo violentá-lo; está livre.
BARÃO
— Livre, e não menos desconsolado.
D. HELENA
— Tanto melhor!
BARÃO
— Como assim?
D. HELENA
— Nada mais simples: vejo que é caprichoso e incoerente. BARÃO — Incoerente, é verdade.
D. HELENA
— Irei de procurar outro mestre.
BARÃO
— Outro mestre! Não faça isso.
D. HELENA
— Por quê?
BARÃO
— Porque... (Pausa.) V. Exa. é inteligente o bastante para dispensar mestres.
D. HELENA
— Quem lho disse?
BARÃO
— Adivinha-se.
D. HELENA
— Bem; irei queimar os olhos nos livros.
BARÃO
— Oh! seria estragar as mais belas flores do mundo!
D. HELENA, sorrindo
— Mas então nem mestres nem livros?
BARÃO
— Livros, mas aplicação moderada. A ciência não se colhe de afogadilho; é preciso penetrá-la com segurança e cautela.
D. HELENA
— Obrigada. (Estendendo-lhe a mão.) E visto que me recusa as suas lições, adeus.
BARÃO
— Já!
D. HELENA
— Pensei que queria retirar-se.
BARÃO
— Queria e custa-me. Em todo caso, não desejava sair sem que V. Exa. me dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?
D. HELENA
— Bem e mal.
BARÃO
— Pensa então...
D. HELENA
— Penso que é inteligente e bom, mas caprichoso e egoísta.
BARÃO
— Egoísta!
D. HELENA
— Em toda a força da expressão. (Senta-se.) Por egoísmo — científico, é verdade, — opõe-se às afeições de seu sobrinho; por egoísmo, recusa-me as suas lições. Creio que o Sr. Barão nasceu para mirar-se no vasto espelho da natureza, a sós consigo, longe do mundo e seus enfados. Aposto que, desculpe a indiscrição da pergunta, — aposto que nunca amou?
BARÃO
— Nunca.
D. HELENA
— De maneira que nunca uma flor teve a seus olhos outra aplicação, além do estudo?
BARÃO
— Engana-se.
D. HELENA
— Sim?
BARÃO
— Depositei algumas coroas de goivos10 no túmulo de minha mãe. D. HELENA — Ah!
BARÃO
— Há em mim alguma coisa mais do que eu mesmo. Há a poesia da afeições por baixo da prova científica. Não a ostento, é verdade; mas sabe V. Exa. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que havia de mais caro: a família. Desposei a ciência, que me tem servido de alegrias, consolações e esperamos. Deixemos, porém, tão tristes memórias...
D. HELENA
— Memórias de homem; até aqui eu só via o sábio.
BARÃO
(continua...)
ASSIS, Machado de. Lição de botânica. Rio de Janeiro, 1906.