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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

LUÍS – Desde o dia que principiaram a chegar a esta terra carregamentos de colonos, como antigamente chegavam carregamentos de cebolas, ainda cá não apareceu uma ilhoazinha com esses olhos matadores, com esses beicinhos rosados.

MARIA – Ai, o senhor está a mangar comigo.

LUÍS – As mais que eu por aí vejo são feias como uma lacraia e vermelhas como a crista do galo; mas tu és a nata das ilhoas. (Quer abraçá-la.)

MARIA – Chegue-se para lá, que vou contar a meu marido. (Quer sair, Luís a retém.)


LUÍS – Espera. É pena que estejas casada com teu marido.

MARIA – Ai, pois eu podia estar casada com um homem que não fosse meu marido?

LUÍS – Pois não.

MARIA – Está zombando? (Neste tempo a fogueira está de todo acesa e todas as pessoas que estão na casa saem e ficam ao redor da fogueira, ad libitum.)

LUÍS – Sentemo-nos neste banco, que te explicarei como pode isto ser. Aqui nos podem ver lá de cima com o clarão da fogueira.

MARIA – Estou com curiosidade.

LUÍS, à parte – Isto sei eu. (Assentam-se no banco.) Supõe que nunca tenhas visto teu marido... Que mãozinhas! (Pega-lhes nas mãos.)

MARIA – Largue minha mão!

LUÍS – Nem encontrado com ele... Que olhinhos!

MARIA – Deixe meus olhos!

LUÍS – Ora, se nunca o tivesse visto nem encontrado, está claro que agora não estarias casada com o teu marido.

MARIA – Ora vejam! E é verdade!

LUÍS – Não terias dado essa mão, (pega-lhe na mão) que tanto estimo... (Aqui atravessa a cena Manuel, vestido de mulher, e entra no seu quarto.)

MANUEL, atravessando a cena – Custou-me o arranjar-me...

MARIA – O senhor tem um modo de explicar as coisas que entram pelos olhos... De sorte que se eu não tivesse encontrado a Manuel, não estava hoje casada?

LUÍS – Decerto.

MARIA – Sabe o senhor quando eu o vi? Foi numa festa que se deu no Funchal. (Manuel, depois de entrar no quarto, fecha a porta e fica dentro do quarto, defronte da janela. Chega-se para ele, como vindo do interior, João, que supondo ser a Maria, o abraça.)


JOÃO – Minha ilhoazinha, minha Mariquinha! (Dá abraços e beijos, que Manuel corresponde.)


MARIA – Hem?


LUÍS – Não disse nada. Continua. (Continua a ter a mão dela na sua.)

MARIA – Eu ia para a festa. Ai, agora é que me lembro que se não fosse a festa também não estava casada!

LUÍS, dando-lhe um abraço – Maldita festa!

MARIA – Fique quieto! Veja o diabo as arma.

LUÍS – É verdade! (Manuel e João, que ouvem as vozes dos dois, chegam-se para a janela, e dando com os dois no banco abaixo, ficam observando, dando sinais de grande surpresa.)

MARIA – Estive quase não indo à festa, e se não fosse o meu vestido novo... Ai, senhor, e se não fosse o vestido novo, eu também não estava casada.

LUÍS, abraçando – Maldito vestido!

MARIA – Foi minha tia que mo deu. Ai, que se eu também não tivesse tia, não era agora mulher de meu marido. (Manuel debruça-se pela janela e a agarra no pescoço.)

MANUEL – Maldita mulher! (Maria dá um grito e levanta-se; o mesmo faz Luís. Maria, conhecendo o

marido, deita a correr, atravessando a cena. Manuel salta pela janela e a persegue, gritando. Saem ambos da cena.)


LUÍS, vendo Manuel saltar – Que diabo é isto? (Reconhecendo João, que fica à janela:) O tio João!


JOÃO – Cala-te! (Esconde-se.)


LUÍS, rindo-se – No quarto da ilhoa! (Acodem todos, isto é, Clara, Clementina, Ritinha, Júlio e os convidados.)

CENA XVIII

CLARA – O que é? Que gritos são estes?

CLEMENTINA, ao mesmo tempo – O que aconteceu?


RITINHA, ao mesmo tempo – O que foi? (Luís ri-se.)


CLARA – O que é isto, Luís? Fala. (Luís continua a rir-se.)


CLEMENTINA – De que se ri tanto o primo?

CLARA – Não falarás?

LUÍS – Quer que eu fale? Ah, ah, ah!

CLARA – E esta?

CLEMENTINA – Eu ouvi a voz da Maria.

CENA XIX

Entra Maria adiante de Manuel, gemendo. Manuel conserva-se vestido de mulher.

RITINHA – Aí vem ela.

CLARA – A gemer. Que foi?

(continua...)

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