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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

Virgínia (chamando) — Psiu! Psiu! Henriqueta!

Clarice — Não grites tanto!

Virgínia — Somos nós! Ela ouviu-nos; aí vem. Sim, sim, entra, entra, sou eu e minha irmã. (Saindo ambas da janela.)

Clarice — Henriqueta cá pela Bahia? O que será?

Virgínia — Não adivinhas? Vem atrás do marido.

Clarice — Que casal também esse...

CENA VIII

Henriqueta e as ditas.

Virgínia — Henriqueta! (Abraçando-a.)

Henriqueta — Minhas caras amigas!

Clarice — Tu por cá, Henriqueta?

Henriqueta — Cheguei esta manhã mesmo no vapor, e muito estimo ter-vos encontrado. Ajudar-me-eis no empenho que me trouxe à Bahia?

Virgínia — Qual é ele?

Clarice — Conta conosco.

Henriqueta — Venho em procura de meu marido, que há mês e meio abandonoume.

Clarice – Abandonou-te?

Henriqueta — Sim, sim, e partiu para a Bahia. Um mês depois é que soube que ele aqui estava, e pus-me logo a caminho.

Virgínia — Pobre Henriqueta!

Clarice — Em que lida vives por um ingrato?

Henriqueta — Vocês o não tem visto?

Virgínia — Se temos...

Clarice — E há bem pouco tempo.

Henriqueta — Aonde?

Virgínia — Aqui.

Henriqueta — Aqui mesmo?

Clarice — Sim.

Henriqueta — E voltará?

Virgínia — Não tarda.

Henriqueta — Oh, Sr. Jeremias, agora veremos! O senhor não contava com a minha resolução. Assim abandonar-me...

Virgínia — E o teu marido é como todos - falso, ingrato e traidor. (Aqui entra o criado com velas e as põe sobre a mesa.)

Clarice — Ele dizia sempre que recebia cartas tuas, e dava-nos lembranças.

Henriqueta — Pérfido mentiroso! Oh, mas hei de segui-lo ainda que seja até o inferno!

Virgínia — Vê tu, Henriqueta, como são as coisas... Tu corres atrás de teu marido, e nós quiséramos estar bem longe dos nossos.

Henriqueta — Como assim?

Clarice — Henriqueta, somos muito desgraçadas, muito...

Henriqueta — Vocês, desgraçadas?

Virgínia (chorando) — Sim, e muito.

Henriqueta — Oh, e por quê?

Clarice — Nossos maridos tratam-nos como fôssemos suas escravas. (Chora.)

Henriqueta — É possível...

Virgínia — Nós é que pagamos as cabeleiras que tomam. Não temos vontade nem deliberação em coisa alguma. Governam-nos britanicamente.

Henriqueta — E o que fazem vocês?

Virgínia — O que havemos fazer, senão sujeitarmo-nos?

Henriqueta — Nada, isso lhes dá razão!

Clarice — Ah, minha cara amiga, se estivesses em nosso lugar...

Virgínia — Escuta, Virgínia, e tu, Clarice, uma coisa que eu não dissera, se não ouvisse a confidência que acabas de fazer-me. Mas sou vossa amiga e compadeçome do estado e engano em que viveis...

Virgínia — Engano em que vivemos?

Clarice — Explica-te...

Henriqueta — Sabes tu o que se diz no Rio de Janeiro?

Virgínia — Tu me assustas!

Clarice — Acaba.

Henriqueta — Que vocês não estão casadas legitimamente.

Ambas — Não estamos casadas?

Henriqueta — Não.

Virgínia — Tu gracejas.

Henriqueta — Ora dizei-me, em que religião fostes criadas?

Virgínia — Na religião de nossos pais.

Clarice — Católica, Apostólica, Romana.

Henriqueta — E teus maridos?

Virgínia — São protestantes.

Henriqueta — E aonde vos casastes?

Clarice — No templo inglês do Rio de Janeiro, na Rua dos Barbonos.

Henriqueta — E não fostes também receber a benção católica do vigário da vossa freguesia?

Virgínia — Não.

Henriqueta — Minhas amigas, sinto muito repetir; não estais legitimamente casadas.

Virgínia — Mas por quê?

Clarice — Não compreendo.

Henriqueta — As cerimônias nupciais protestantes só ligam os protestantes; e as católicas, os católicos.

Virgínia — Assim...

Henriqueta — Assim, só eles é que estão casados; vocês, não.

Clarice — Meu Deus!

Virgínia (ao mesmo tempo) — Oh, é isto possível?

Henriqueta — E vivam na certeza que vocês não são mais que amantes de vossos maridos, isto é, casadas solteiras.

Virgínia — Que infâmia!

Clarice (ao mesmo tempo) — Que traição!

(continua...)

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