Por José de Alencar (1874)
"Meus seios mais lindos que os botões do cardo, por um peito feroz, e as mãos ligeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar.
"Eu fui Jandira, o manacá viçoso que se vestia de flores azuis e brancas.
"Agora sou como a juçara que perdeu a folha, e só tem espinhos para ferir aqueles que se chegam."
Os anciões já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara entrou. Falou Camacã
— Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação araguaia escutam a tua voz.
O grande chefe três vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse:
— Pojucã, o chefe tocantim, pede a morte do combate; ele a merece, porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe essa honra, como seu vencedor.
— Ubirajara é um inimigo generoso, respondeu Camacã.
Todos os anciões inclinaram gravemente a cabeça encanecida para exprimirem sua aprovação às palavras de Camacã.
Prosseguiu Ubirajara
— É tempo de escolher para o prisioneiro uma esposa digna de acompanhar em seus últimos dias ao herói inimigo, e de ser mãe do marabá, o filho da guerra.
Todos os abarés desejavam para si a glória de oferecer uma filha ao prisioneiro.
— Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ela o merece por sua formosura e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias.
— Ubirajara é um grande chefe, disse Camacã.
Os anciões aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrescentou
— O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação araguaia.
— Não! disse Ubirajara, e todos os anciões repetiram Não!
O grande chefe tornou com a voz pausada.
— Celebrai a cerimônia da entrega da esposa ao prisioneiro. Ubirajara parte; só estará de volta na próxima lua para assistir ao suplicio de Pojucã. Se na ausência de Ubirajara cair na taba a flecha, anúncia da guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios e soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será convosco.
Os prudentes anciões, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam as palavras do grande chefe e as guardavam na memória.
Quando Ubirajara calou-se, Camacã repetiu, ainda mais pausado, as recomendações do filho
— É esta a vontade de Ubirajara?
— Tu o disseste.
— Os anciões guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda Camacã.
— Ela entrou no espírito dos abarés, como a raiz no seio da terra; observou Majé.
— Bem dito; repetiram todos.
Ubirajara saiu do carbeto; após ele os anciões se retiraram lentamente.
A HOSPITALIDADE
Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins. É a hora em que as sombras abraçam os troncos das árvores e o sol descansa em meio da carreira.
A floresta emudece e todos os viventes se abrigam da calma que abrasa.
Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos tocantins.
Quando chegou à distância do tiro de uma flecha despedida pelo mais robusto guerreiro, tocou a inúbia.
O guerreiro de vigia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta, alçou a mão direita para mostrar a senha da paz.
Então avançou para a taba; na entrada da caiçara que cercava o campo dos tocantins, atirou ao chão a seta partida.
Os guerreiros que tinham acudido ao som da inúbia, deixaram passar o estrangeiro sem inquirir donde vinha, nem o que trouxera.
Era este o costume herdado de seus maiores; que o hóspede mandava na taba aonde Tupã o conduzia.
Ubirajara passou entre os guerreiros e dirigiu-se à cabana mais alta que ficava no centro da ocara.
A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta, dizia que era ali a cabana do grande chefe. Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira à grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sítio onde habitava Araci, a estrela do dia.
A cabana estava deserta naquele instante, mas ouvia-se a fala das mulheres que trabalhavam no terreiro.
Ubirajara transpôs o limiar e, levantando a voz, disse:
— O estrangeiro chegou.
Acudiram as mulheres e conduziram Ubirajara à presença do grande chefe dos tocantins.
Itaquê passava as horas da ardente calma à sombra da frondosa gameleira, que podia abrigar cem guerreiros embaixo de sua rama.
Repousando dos combates, o formidável guerreiro não desdenhava as artes da paz em que era tão consumado como nas batalhas.
Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho à família de que era pai, e à nação de que era chefe.
Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas, urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em forma de pente. Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o tacape. Sua mão ligeira tramava a teia de uma rede, que entretecia das penes douradas do galo-da-serra.
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.