Por José de Alencar (1872)
- Desta vez escapou, disse ele com surda entonação.
Dirigiu-se ao tronco e arrancou a faca, depois de esmagar a cabeça da urutu.
- Que diabo é isso? perguntou o embuçado.
- Não vê? retorquiu Jão limpando nas ramas a folha da faca.
- Agora penetro porque o diabo do ruço pinchou-me!
Cuidando então do cavalo que podia fugir-lhe, o desconhecido pôs-lhe cerco, e com algum trabalho conseguiu colher as rédeas; feito o que tornou ao lugar, onde havia deixado o capanga.
Este o esperava impassível, mas um tanto absorto.
- Como se chama o senhor? perguntou bruscamente ao cavaleiro.
- Oh, homem, lembrou-se disso agora! tornou o outro um tanto ressabiado.
- Quando o senhor me procurou há tempos para seu negócio, não me disse como se chamava.
- Porque não era preciso.
- Nem ontem quando me avisou para estar aqui; prosseguiu o capanga sem interromper-se. Mas agora há de dizer: quero saber com quem trato.
- Para que? Desde que a gente paga... Ou desconfia o senhor de mim?
- Ninguém me logra, disse Jão com um sorriso mostrando a faca. Tenho este fiador. O ponto é outro; só avanço com quem conheço.
- Pois não seja essa a dúvida. Com os diabos; chamo-me Barroso!
- Nunca morou aqui em Santa Bárbara?
Com essa interrogação ferrou o capanga olhar perscrutador no semblante do cavalheiro.
- Eu?... Que esperança!... De Sorocaba todo inteiro! É a primeira vez que boteime cá para estas bandas.
Isto, disse-o Barroso com segurança e desplante.
- E por que tem gana ao homem?
- Ora essa! Fez-me uma; e jurei que havia de pagar com usura.
- História de mulher? perguntou o capanga vibrando-lhe um olhar ardente.
- Quem se embaça agora com saias? Não sou nenhum balão! Quer saber o que me fez o diabo? Teve o atrevimento de dizer em certa parte que, se lhe passasse a tronqueira da fazenda, mandava-me amarrar ao mourão por seus negros e surrar-me com um calabrote!
- Ah! Ele disse isto?
- Com certeza; mas daqui há pouco vamos saldar as contas. Ele vem aí; não tarda.
- Mas que escândalo teve o homem do senhor, para dizer isso!
- Essa maldita política! Se eu guerreei a chapa dele; eu cá sou do governo!... Mas escute. Arranjou-me tudo; o patife só traz um capanga e o pajem; por conseguinte desta vez não tem desculpa.
O capanga levantou os ombros com ar de indiferença.
- Já sei; vá andando.
- Posso ficar aqui mesmo.
- Fique, mas já lhe aviso. Quando eu vejo vermelho, não conheço quem está perto de mim.
- Safa!... Neste caso vou por aí afora, até a venda do Chico Tinguá. Lá o espero, homem; e com o resto da chelpa. Duas onças, das suçuaranas, bem amarelinhas, ou três canários, à vontade do amigo, contanto que desta feita acabe-se o negócio. Já o diabo podia Ter comido muita terra, se cá o camarada fosse mais decidido.
Às últimas palavras de barroso o capanga abaixou o olhar, e um repentino enleio atou aquela organização robusta e audaz, que difundia em torno de si a plenitude da sua pujança. Alguma fibra vital fora dolorosamente pungida, que o confrangia, amortecendo o natural orgulho e arrojo do caráter.
- Só tenho uma palavra, sr. Barroso! disse afinal com a voz firme e grave.
- Mas está custando a cumprí-la; confesse-se!...
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.