Por José de Alencar (1875)
Entre todas, avulta a guerra de extermínio das duas poderosas famílias dos Montes e Feitosas, que se acabou pelo aniquilamento da primeira. Desta bárbara contenda ficou sinistra memória não só na crônica da província, como no escólio de sua topografia.
Com outros sesmeiros, veio de Pernambuco o velho Campelo, que tinha fundado a herdade, e a transmitira por sucessão havia já vinte anos ao filho, o atual capitão-mór.
No tempo da fundação da fazenda ainda o formoso e ameno sertão de Quixeramobim, que os primeiros povoadores haviam denominado Campo maior por causa da extensão, achava-se quase inhabitado.
Apenas se encontravam alguns ranchos onde se acolhia uma população vagabunda de aventureiros, que percorriam o sertão, vivendo das rapinas e dos recursos que lhes oferecia a fartura da terra.
Só em 1755 fundou-se sob a invocação do Santo Antônio de Pádua a primeira freguesia, a qual mais tarde foi criada vila pela carta régia de 13 de junho de 1789, que a separou do têrmo de Aracati.
Sob o domínio do atual dono, a fazenda continuou a prosperar e com o volver dos anos adquiriu novas pertenças, com que mais se excedia, não lhe faltando nenhuma das comodidades e recreios que pedia um viver à lei da grandeza.
Tal era a herdade a que chegara o capitão-mór nessa tarde de 10 dezembro de 1764.
Tomava êle do Recife, aonde à volta de cada três anos costumava fazer uma viagem. Desta vez levara a família para mostrar a capital do Pernambuco a D. Flor, que ainda não a tinha visto; pois só para visitar a avó em Russas ou para assistir aos ofícios da semana santa no Icó, havia a donzela alguma rara vez deixado a Oiticica onde nascera.
Ao cabo de sua jornada, já em terras da fazenda, fôra o capitão-mór atalhado pelo fogo, que afinal conseguira extinguir com sua gente.
Concluído o serviço, encaminhara-se para a casa e acabava de parar no terreiro, embaixo da oiticica.
Às aclamações com que o acolheu toda a gente da fazenda pressurosa ao seu encontro, respondeu com um aceno repetido da mão esquerda; e apeou-se afinal sem esfôrço, mas guardada a pausa e medida de que jamais se desairava.
Alí deu audiência de chegada a todas as pessoas, que uma após outra, desde o capelão e o feitor até o último dos escravos, vieram saudá-lo dando-lhe boa-vinda; a cada um escutava com paciência, examinando-lhe as feições para notar a mudança que porventura fizera, e dirigindo-lhe alguma breve pergunta.
Depois que passou o último da turma, volveu o capitão-mór os olhos para o seu feitor.
— Falta um!
— Com licença de vossa senhoria, parece-me que estão todos.
— E o Arnaldo?
— Êsse não se conta; desde o dia em que o sr. capitão-mór saíu de jornada, que êle também desapareceu da fazenda.
— Ah! Então é que pediu-nos licença, e nós lha concedemos.
— Com certeza que há de tê-la pedido, acrescentou o Agrela.
Descarregou o capitão-mór no feitor um olhar que o aturdiu:
— Manuel Abreu, chegámos e vimos achar o fogo nas matas da Oiticica a meia légua de nossa casa; e ninguém na fazenda soube, nem acudiu em tempo. Como foi isto, Manuel Abreu?
— Com licença do sr. capitão-mór, saberá vossa senhoria que eu não sei. Ainda não estou em mim com um caso dêstes!
— Pois amanhã há de estar averiguado quem foi o causador do incêndio, para lhe ser lançado conforme a culpa.
Dirigiu-se o fazendeiro ao pórtico da casa, cujos degraus subiu, para entrar na sala pintada de florões a fresco pelo teto e pelas paredes e guarnecida de móveis de jacarandá forrados de moscóvia com tachas de prata.
Ali estavam ainda D. Genoveva e a filha que se levantaram para recebê-lo.
Então, só então, quando todos os deveres de dono da propriedade estavam cumpridos, consentiu o capitão-mór que afinal pulsasse o seu coração de pai.
Cingindo com o braço o talhe de D. Flor, cerrou-a ao peito; no desusado alvorôço que perpassou-lhe a fisionomia sempre calma e serena, se reconhecia que a alma fôra profundamente percussa.
Depois que abraçou a filha, sem arroubos, solene mas prolongadamente, o capitão-mór levou-a para o sofá e sentando-a defronte de si esqueceu-se a fitá-la, como se não a tivesse visto por largo trato e se quisesse recuperar dessa privação de sua imagem.
Êste pormenor mostrava o relêvo do homem que era o capitão-mór. Formalista severo, adicto às regras e cerimônias, que se esmerava em observar escrupulosamente, imbuído de uma gravidade que tinha por essencial ao decôro de uma pessoa de sua categoria e posição, sujeitava todos os afetos como todos os interêsses a essa rigorosa disciplina das maneiras.
Não era, porém, êsse modo do Campelo a afetação ridícula de meneios em que se requinta a fatuidade; e sim uma temperança de gesto e de palavra, que se comediam pelo receio de descaírem em vulgaridades.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.